Tuesday, September 13, 2011

portas


Shut not your doors to me, proud libraries,
For that which was lacking on all your well-fill’d shelves, yet needed most, I bring;
Forth from the army, the war emerging—a book I have made,
The words of my book nothing—the drift of it everything;
A book separate, not link’d with the rest, nor felt by the intellect,
But you, ye untold latencies, will thrill to every page;
Through Space and Time fused in a chant, and the flowing, eternal Identity,
To Nature, encompassing these, encompassing God—to the joyous, electric All,
To the sense of Death—and accepting, exulting in Death, in its turn, the same as life,
The entrance of Man I sing.

Walt Whitman

Tuesday, July 26, 2011

kubrick, 83

Thursday, July 7, 2011

quero



Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

Saturday, July 2, 2011

stasis in darkness


ARIEL

Stasis in darkness.
Then the substanceless blue
Pour of tor and distances.

God's lioness,
How one we grow,
Pivot of heels and knees! -- The furrow

Splits and passes, sister to
The brown arc
Of the neck I cannot catch,

Nigger-eye
Berries cast dark
Hooks ----

Black sweet blood mouthfuls,
Shadows.
Something else

Hauls me through air ----
Thighs, hair;
Flakes from my heels.

White
Godiva, I unpeel ----
Dead hands, dead stringencies.

And now I
Foam to wheat, a glitter of seas.
The child's cry

Melts in the wall.
And I
Am the arrow,

The dew that flies,
Suicidal, at one with the drive
Into the red

Eye, the cauldron of morning.

Sylvia Plath

Monday, June 20, 2011

Teoria das cores

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro, através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.

Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.


Herberto Helder, Os Passos em Volta


Thursday, June 16, 2011

Não o leio por ler, mas para me encostar ao seu peito.


Kafka sobre A. Strindberg

o caçador de imagens

Walter Miller

olhos que escrevem, mãos que pintam

August Strindberg
dramaturgo



Monday, June 13, 2011

Prelude

How could I love you more?
I would give up
Even that beauty I have loved too well
That I might love you better.
Alas, how poor the gifts that lovers give —
I can but give you of my flesh and strength,
I can but give you these few passing days
And passionate words that, since our speech began,
All lovers whisper in all ladies' ears.
I try to think of some one lovely gift
No lover yet in all the world has found;
I think: If the cold sombre gods
Were hot with love as I am
Could they not endow you with a star
And fix bright youth for ever in your limbs?
Could they not give you all things that I lack?
You should have loved a god; I am but dust.
Yet no god loves as loves this poor frail dust.

Richard Aldington

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar, Na Vertigem do Dia