Monday, April 27, 2009

Humano, demasiado humano

Filme da semana
E do mês
Filme do ano
Quem sabe de uma vida...

Carl Th. Dreyer
La Passion de Jeanne d'Arc

1928










Friday, April 17, 2009

Festa Brasil




Tuesday, April 14, 2009

Colar



Man Ray, Necklace (or Anatomy)

Wednesday, April 1, 2009

Vôo com abril nas mãos

Murilo Mendes

EM ABRIL, O LUGAR DA CASA

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade

O Mundo Sólido de João Paulo Sousa


Directamente roubado do Da Literatura (http://daliteratura.blogspot.com/2009/03/capa-e-abertura.html)

«Esta é a capa do meu romance O Mundo Sólido, editado pela Deriva, que chegará às livrarias na segunda quinzena de Abril. Ainda nesse mês, será apresentado em Lisboa, a 23, e no Porto, a 29. Mais adiante, darei todas as informações sobre os lançamentos. Para já, aqui fica a abertura da obra:

Ao fim de um dia cansativo no gabinete, em que toda a minha atenção se concentrara no projecto da nova biblioteca de Ravenna e me levara a passar parte da hora de almoço a compor sucessivos desenhos sobre guardanapos de papel, e após um lento regresso ao apartamento em que vivo com a Paola, em parte devido à certeza de não a encontrar à minha espera, em parte para libertar o pensamento dos esquissos e traçados que o haviam ocupado durante tanto tempo, encontrei, na caixa do correio, entre inúteis folhetos publicitários e dois sobrescritos de aparência institucional, uma carta do meu filho, que me apressei a abrir, onde ele me anunciava que não seria pai. O texto era breve e estava impresso numa folha branca, demasiado branca, sem uma única palavra escrita à mão, nem mesmo o nome no fim a assinar, permitindo pensar que outra pessoa o teria redigido, mas eu não quis admitir essa possibilidade, embora ela talvez me houvesse tranquilizado um pouco. Com a carta na mão esquerda, aberta sobre a restante correspondência, detive­‑me à saída do elevador, como se de repente tivesse esquecido o que fazia ali e as escadas à minha direita e a porta em frente não me fossem familiares, como se as paredes tivessem adquirido uma redobrada espessura para que não me restassem dúvidas sobre a sua opacidade, sobre a total impossibilidade de as transpor, como se o mundo quisesse excluir­‑me e anunciasse o seu propósito com uma violência silenciosa. Não me mexi quando a luz das escadas se apagou e fiquei rodeado por uma escuridão quase total, apenas contrariada pela clarabóia do telhado, que deixava passar suficientes vestígios de uma noite clara ou da iluminação pública para que o meu olhar forçasse o negrume e aos poucos recuperasse os contornos das formas que me cercavam. Só consegui libertar­‑me da imobilidade quando ouvi uma porta a abrir­‑se e, por não ter conseguido localizar a proveniência do som, receei que se tratasse da vizinha de cima e que ela pudesse descer pelas escadas e me encontrasse ali parado, à porta de casa, em completo silêncio, o que teria aproveitado de imediato para me acusar de estar a espiá­‑la, de andar a espiá­‑la há muito tempo, como já uma vez dissera. Falaria em voz muito alta, como então havia feito, para que os outros moradores do prédio ouvissem e aparecessem nos patamares, provocaria um escândalo para gritar mal de mim e da Paola, por isso abri depressa a porta do apartamento e meti­‑me lá dentro antes sequer de acender uma luz. Tacteei até à sala e atirei­‑me para cima de um sofá, onde, no intuito de me libertar da agitação nervosa e irracional que crescera dentro de mim nos últimos minutos, abandonei os papéis e as chaves que me ocupavam as mãos e massajei lentamente o rosto com as pontas dos dedos. Enquanto repetia o movimento devagar, para forçar a minha respiração a adaptar­‑se a esse ritmo e regressar à sua cadência habitual, pensava que não deveria ter aberto a carta sem a presença da Paola, não deveria sequer ter aberto a caixa do correio, nunca deveria ter feito nada tão potencialmente perigoso sem que a Paola estivesse por perto e pudesse intervir e acalmar­‑me se tal fosse necessário. Tentei imaginar o que ela me teria dito se estivesse comigo naquele momento, mas esse esforço, que me obrigou a rever mentalmente a carta pousada ao meu lado e a rememorar cada uma das palavras do meu filho, ao invés de permitir que eu recuperasse alguma serenidade, apenas serviu para agravar a ansiedade de que procurava libertar­‑me. Quase saltei do sofá em direcção à janela mais próxima, movido por uma intensa e inesperada sufocação, para abri­‑la de par em par e engolir o ar quente do exterior nocturno. O meu olhar derivou da rua estreita e pouco iluminada, por debaixo daquela janela, até aos clarões eléctricos da avenida perpendicular, onde se situava a entrada do prédio, para regressar ao ponto de partida e se deter sobre o toldo de um pequeno restaurante a que eu e a Paola costumávamos recorrer com alguma regularidade à hora de jantar, mas não conseguiu que o nome do meu filho Álvaro, em caracteres demasiado negros sobre uma superfície branca, como uma cortina hesitante entre a transparência e a opacidade, desistisse de me ocupar o pensamento. O ruído dos carros na avenida misturava­‑se à voz neutra do meu filho, tal como eu o imaginava a dizer­‑me as palavras que preferira escrever, tal como eu o imaginava a contar que a Maria caíra desamparada nas escadas do prédio e, ainda que tivesse sido logo socorrida por ele, que a levara de imediato ao serviço de urgência de um hospital central, perdera a criança que deveria nascer dali a três meses. A concluir a carta, o meu filho assegurava­‑me que a mulher estava bem, mas não deveria ser inquietada com telefonemas sobre o seu estado de saúde, para que a memória pudesse limpar­‑se, como ele dizia, numa expressão que me causou alguma repugnância, sem que eu compreendesse imediatamente porquê.»