Wednesday, February 28, 2007

Brueghel by W. H. Auden


Landscape with the Fall of Icarus, Pieter Brueghel c. 1558
Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelas

Musée des Beaux Arts

About suffering they were never wrong,
The Old Masters: how well they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.
In Brueghel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the plowman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.

Monday, February 26, 2007

Godard Electronique

Chama-se buraco de verme. Ou ponte, como preferiu Einstein. Deforma-se o espaço-tempo de modo a tornar possível viajar no tempo, a partir de uma região com curvatura negativa, como a da superfície de uma sela. E é em pontes assim que as personagens de «Bande à Part», de J.-L. Godard (1964), dançam compassadamente ao ritmo de «In the Morning», dos Junior Boys (2006). Para entrar na twilight zone basta dançar. E talvez ouvir os Nouvelle Vague, álbum «Bande à Part» (2006), enquanto se vê «Bande à Part», da Nouvelle Vague (1964).

Saturday, February 24, 2007

Falhar melhor




Ever tried.
Ever failed.
No matter.
Try again.
Fail again.
Fail better.


Samuel Beckett, Worstward Ho

Thursday, February 22, 2007

Tesourinhos não-deprimentes V

A melhor intro... In honorem Bruce Weitz, aka Mick Belker, recentemente atirado para uma cama de Hospital em Grey's Anatomy (Season 1, ep. «If Tomorrow Never Comes»)

Bovary, c'est moi


Participação simbólica na tertúlia doméstica dedicada a Madame Bovary em Little Children, de Todd Field

Não quiseram entender como a transpiração
dos lábios se socorria de uma vida de monótonas tardes
ardidas no fundo do jardim. Não quiseram levar-te
ao ponto onde sabias que a vida se suspende,
ignoraram como vias da vida muito mais
do que a vida dos teus olhos poderia trair.
Abandonaram-te aos teus abandonos,
néscios de que assim tudo abandonavas
na lassidão de tão lasciva entrega.
Até as pedras de Rouen, frescas no sobressalto
com que te acolhiam todas as quintas-feiras,
até as pedras das ruas de Rouen sossobraram,
vítimas do tumulto que as percorreu.

Wednesday, February 21, 2007

Restos do Carnaval

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - àidéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.


Clarice Lispector

Toda rosa é rosa por que assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Deixa eu brincar de ser feliz

Tuesday, February 20, 2007

UP

São dias felizes para a Universidade do Porto, estes dias de Carnaval. Terça-feira gorda para a UP e os seus investigadores, que tiveram supreendentes honras de primeira página de jornal. Num triste contexto em que a investigação se encontra cada vez mais limitada nos seus meios e modos devido a insolúveis problemas de financiamento, um voto de louvor para todos aqueles que conseguem competir a nível internacional, afirmando-se como investigadores indispensáveis no âmbito alargado da ciência actual.

Do artigo:

São investigadores da Universidade do Porto (UP), que têm honrado o nome da instituição com a publicação de centenas de artigos em revistas internacionais. Depois de se saber que um quinto da produção científica do país saiu, no ano passado, dos laboratórios e salas de aulas da UP, o JN foi conhecer alguns desses "exportadores de sabedoria". As faculdades de Medicina, Ciências e Engenharia estão entre as mais produtivas, contribuindo para um aumento de 15% da produção científica da UP, de 2005 para 2006. Os dados, fornecidos pelo consórcio norte-americano Institute for Scientific Information (ISI), revelam que, no ano passado, foram publicados em revistas internacionais 1553 artigos de docentes, investigadores ou estudantes ligados à Universidade do Porto.

Destaquem-se os nomes de Manuel Gutierres, Diogo Aires de Campos e Filipa Carvalho (Faculdade de Medicina); Maria João Ramos (Faculdade de Ciências); Alírio Rodrigues e Artur Pimenta Alves (Faculdade de Engenharia). E destaquem-se ainda todos os não nomeados cujo trabalho de investigação - levado a cabo em condições muito pouco confortáveis - tem projectado a UP no panorama internacional e contribuído para o avanço deste nosso pequeno grande mundo.


E, já que estamos em temporada ufanista, a não perder:



Depósito - Anotações sobre Densidade e Conhecimento
Museus da Universidade do Porto revelados à cidade


Exposição comissariada por Paulo Cunha e Silva. A Universidade do Porto traz os seus museus até ao coração da cidade. Paulo Cunha e Silva foi convidado a revolver os depósitos dos vários núcleos museológicos da academia para, numa inédita exposição, revelar os tesouros escondidos nos espólios da universidade. Construindo uma narrativa em torno da História da Natureza e da História do Conhecimento, a exposição desvenda mais de 570 peças dos diferentes núcleos museológicos da U.Porto - das Ciências Naturais à Engenharia, passando pela Medicina, as Belas Artes ou o Desporto. Minerais, fósseis vegetais e animais, colecções de insectos e invertebrados, primatas e crocodilos embalsamados, peças anatómicas humanas, instrumentos de pedra lascada, armas de bronze, múmias egípcias, instrumentos cirúrgicos históricos, frascos farmacêuticos, máquinas a vapor, modelos cinemáticos, instrumentos de electrotecnia, maquetas de pontes e edifícios, esculturas, pinturas, vídeo e as últimas teses de doutoramento defendidas na universidade são apenas algumas das peças. Uma monumental estante de 7 metros de altura por 12,5 de largura colocada no átrio do edifício histórico da Reitoria da Universidade do Porto virado para o Jardim da Cordoaria acolhe todas estas peças, construindo a evolução das duas histórias evocadas pela mostra: dos minerais e rochas ao encéfalo humano (Natureza), dos instrumentos de pedra lascada à obra de arte (Conhecimento). Na entrada principal do edifício, no átrio oposto, aquele que se encontra virado para a Praça Gomes Teixeira (Praça dos Leões), uma "selva do conhecimento" composta por alguns das mais volumosas peças de cada núcleo museológico da universidade - um esqueleto de gorila, um esqueleto humano, um crocodilo embalsamado, maquetes de arquitectura e de engenharia de pontes ou uma tela de Ângelo de Sousa - dão as boas vindas a todos os visitantes da Reitoria da U.Porto durante o tempo da exposição. Mas como o futuro, e não o passado, é a matéria-prima por excelência de uma universidade, 14 artistas contemporâneos, convidados a trabalhar o tema do depósito, da colecção e do conhecimento científico, interpretam as peças do espólio da U.Porto, recriando-as e expandindo-as para a contemporaneidade. Entre as artes visuais e a performance, as peças que André Cepeda, Eduardo Matos, João Leonardo, Mafalda Santos, Manuel Santos Maia, Marta de Menezes, Miguel Flor, Miguel Palma + António Caramelo, Nuno Ramalho, Pedro Tudela, Renato Ferrão, Rita Castro Neves e Tiago Guedes criaram especificamente para esta mostra ficarão expostas junto da monumental estante que vai acolher as peças dos depósitos da universidade, criando assim um diálogo permanente entre passado e presente. Desta forma se ultrapassa o paradoxo que é, à partida, a relação de um museu com uma universidade - lugar de inovação, com vocação para produzir futuro, e não espaço de repetição. Um paradoxo que servirá de base à reflexão sobre o presente dos depósitos e o futuro desse museu de museus que é o projecto de unificação das colecções da Universidade do Porto.

A exposição "Depósito - Anotações sobre Densidade e Conhecimento" estará patente no edifício da Reitoria da Universidade do Porto até 30 de Junho.
HORÁRIO DA EXPOSIÇÃO: Das 10h00 às 20h00.
Visitas orientadas à exposição pelo Comissário:

7 e 21 Fevereiro de 2007 - 18h00

7 e 21 Março de 2007 - 18h00

4 e 18 de Abril de 2007 - 18h00

2 e 16 de Maio de 2007 - 18h00

6 e 20 de Junho de 2007 - 18h00
Inscrições: ANA MARTINS 22 0408193 anamartins@reit.up.pt

Monday, February 19, 2007

Fantasporto 2007

Começa hoje. Para aperitivo, uma homenagem retrospectiva ao cinema fantástico dedicado aos super-heróis. Sessões contínuas até quinta-feira, a não perder. Para miúdos e graúdos.



Rivoli - Grande Auditório

Segunda-feira, 19 de Fevereiro

15.00h - X-MEN (EUA/USA) de Bryan Singer
17.30h - SPIDER-MAN, O HOMEM ARANHA (EUA/USA) de Sam Raimi
21.15h - CATWOMAN (EUA/USA) de Pitof
23.30h - ELEKTRA (EUA/USA) de Rob Bowman

Terça-feira, 20 de Fevereiro

15.00h - DAREDEVIL, O HOMEM DEMOLIDOR (EUA/USA) de Mark Steven Johnson
17.30h - CONSTANTINE (EUA - Ale/USA - Ger) de Francis Lawrence
21.15h - HELLBOY (EUA/USA) de Guillermo del Toro
23.30h - SIN CITY, A CIDADE DO PECADO (EUA/USA) de Frank Miller, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino

Quarta-feira, 21 de Fevereiro

15.00h - BATMAN BEGINS, BATMAN - O INÍCIO (EUA/USA) de Christopher Nolan
17.30h - THE PUNISHER, PUNISHER - O VINGADOR (EUA - Ale/USA - Ger) de Jonathan Hensleigh
21.15h - V FOR VENDETTA, V DE VINGANÇA (EUA - GB - Ale/USA - UK - Ger) de James Mcteigue
23.30h - FANTASTIC FOUR, QUARTETO FANTÁSTICO (EUA - Ale/USA - Ger) de Tim Story

Quinta-feira, 22 de Fevereiro

15.00h - BLADE (EUA/USA) de Stephen Norrigton
17.30h - THE INCREDIBLES: OS SUPER HERÓIS (EUA/USA)de Brad Bird
21.15h - SUPERMAN RETURNS, SUPER-HOMEM - O REGRESSO (EUA - Aus/USA - Aus) de Bryan Singer
23.30h - LEAGUE OF EXTRAORDINARY GENTLEMEN, LIGA DE CAVALHEIROS EXTRAORDINÁRIOS (EUA - Ale - Rep Che - GB/USA - Ger - Cze Rep - UK) de Stephen Norrigton.

Toda a programação em www.fantasporto.com

Friday, February 16, 2007

Tribute to the 60s

Happy Birthday George :)

Wednesday, February 14, 2007

Love is in the air - Happy Valentine II

O QUADRO

Chagall

Hoje voo rente ao teu rosto.
Nesta dança das asas
bebo a perda das aves
que o olhar desgastou.
Entro pelo dia fora
de ti.
A FOTOGRAFIA

Erwitt
Ao crepúsculo
sinto o pulso
dos teus lábios.
A ESCULTURA

Rodin
A eternidade é de mármore em chamas.
Um beijo inunda a pedra
de lábios
esquecidos um no outro:
juntos exibem a nudez do mundo.

Love is in the air - Happy Valentine I

OS POEMAS

Vaza-me os olhos: continuarei a ver-te,
tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te,
mesmo sem pés chegarei a ti,
mesmo sem boca poderei invocar-te.
Decepa-me os braços: poderei abraçar-te
com o coração como se fosse a mão.
Arranca-me o coração: palpitarás no meu cérebro.
E se me incendiares o cérebro,
levar-te-ei ainda no meu sangue.

Rainer Maria Rilke, trad. Jorge Sousa Braga

CONHEÇO O SAL

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

OS VERSOS

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill

O LIVRO

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso:

A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras.


A MÚSICA


CODA
Toco-te com a ponta
das palavras: a pele
da pequena sílaba,
silente, movendo
o sentido dos dedos.
Desmedido.

Tuesday, February 13, 2007

A escolha de Sofia

De Jean Cocteau muito se poderia dizer. Muitíssimo. Como de Sofia. E da sua escolha. Mas o que realmente os une não é - ao contrário do que se poderia esperar - o cinema, mas a escolha.

Le Feu de Cocteau

«Se a sua casa sofresse um incêndio e só pudesse salvar um objecto, o que escolheria?»
«Creio que salvaria o fogo.»

O Desastre de Sofia

«Se o acidente do Titanic se repetisse e tivesse a oportunidade de salvar alguma coisa, o que escolheria?»
«Naturalmente, o iceberg.»

ADENDA

Iceberg, de Paulo Leminski (Curitiba, PA, 1944-1989)

Uma poesia ártica,
claro, é isso que eu desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não. Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
Sim, inverno, estamos vivos.

Saturday, February 10, 2007

Poros

Naquele dia trazias nuvens de sangue
a toldar-te o céu da boca.
Trazias o espanto estampado na voz
boquiaberta a língua em bico
como os olhos os cabelos sobre a testa
como pó talco arrancado pelo suor das unhas.
Trazias notícias de jornais amarelos
linhas dos poros do mundo escritas na pele

como se na pele as letras não desmaiassem de pasmo

como se na pele o pasmo não desmaiasse do excesso
de notícias e de letras em pó.
Naquele dia trazias nuvens de pasmo
e de espanto trazias sangue na voz
e pele pendurada no último grito
trazias farrapos de sons
as unhas na face
o meu rosto em pó.
Nesse dia choveu no céu da nossa boca.
E até a fala sangrou nos poros.

Friday, February 9, 2007

Tesourinhos não-deprimentes IV

Como não podia deixar de ser...

Actualidade dos tesourinhos I

Dedicado a todos os que sofreram com a morte do Chanquete e ainda sabem cantar «No nos moverán»

Cristina Yang

Sandra Oh as Cristina Yang, Grey's Anatomy

Burke: So, I have a question to ask. I checked the schedule and I noticed that both you and I are off tonight. I made reservations. I have a favorite restaurant.

Cristina: None of those were questions.

__________________________________________________
Meredith: After all this time, all your warnings about me sleeping with my boss and you're doing the same exact thing.

Cristina: Oh, it's not the same thing.

Meredith: It's the exact same!

Cristina: No, it's not. You and McDreamy are in a relationship.

Meredith: And you and Burke are in?

Cristina: Switzerland. It's very neutral there and they make very nice watches.

____________________________________________________

Cristina: I need you to help me find the leg!... Aren't boyfriends supposed to help in situations like this?

Burke: When we're on duty, I can't be your boyfriend.

Cristina: So, when we're on duty, I can have sex with someone else?

_____________________________________________________
Cristina [to Meredith]: Burke wants to have a relationship... Boys are stupid.

THE END

ON THE ROAD com Kerouac

Nada mais do que a batida de um saxofone
pela estrada dentro. A América
cresce ao ritmo da voz negra
de um branco numa sala traseira.
A estrada protege-nos o rosto,
afinal é o ponto da perda,
o lugar onde tudo se reflecte
no espectro dos pássaros da tarde.
Droga-te com estas palavras
que roçam o asfalto da vida.
A loucura é o nível mais alto
do mundo, a curva de um trópico
rumo à Terra do Fogo:
Burn, burn, burn
like fabulous yellow roman candles
exploding
like spiders across the stars
.
E arder não é mais

do que uma pradaria arrepiada
pelo sol da noite em flor.
A estrada segue sobre rodas
rumo ao inferno, uma densa
eternidade amortalhada penetra
na boca em transe, suspensa
na limpidez de um grito em agonia.
O Mississippi lava a América,
o seu corpo em carne viva. Agora
a estrada é água, cola-se à transparência
e move-se por entre um barco que voa
na crescente ausência do espaço.
Assim se atravessa a eternidade,
na dissolução do Grande Golfo da Noite,
nos quilómetros desolados da paisagem,
nos espaços azuis rasgados pelo céu,
como se a página fosse o Vale do Mundo.
Estremece-se com a intuição do tempo
ao receber o mundo em bruto. A nudez.
O lugar comum,
but no matter,
the road is life
.
Nunca se morre o suficiente
para se poder chorar, dirias,
guardando a vida na mão como um bocado de lixo.
Das borboletas ainda nascem nuvens,
afinal é possível que a poeira suba
às estrelas que trespassam a escuridão.
Lonely as America,
a throatpierced sound in the night
:
a solidão explode

no som entrecortado do saxofone
sobre a espuma das ondas
de música brutal.
A estrada do som,
a estrada dos santos,
a estrada dos doidos,
a estrada do arco-íris,
a estrada interminável,
um demoníaco reflexo da noite negra
no asfalto. Os sonhos terminam,
o mundo espraia-se, trémulo,
palpita pela estrada fora,
é a ira que chega à velha dança.
Um rochedo explode em flor,
o abismo oscila ao mais pequeno toque,
é um precipício seráfico e frenético.
Tudo vibra, a grande serpente emerge
na imobilidade dos gestos,
um insecto sai da tarde americana
picando a realidade, a estrada está prestes
a sair da América, de toda essa terra bruta
de pessoas dispersas na imensidão.
No regresso, resta apenas

percorrer a virgindade da berma.

Thursday, February 8, 2007

Tesourinhos não-deprimentes III



O melhor slow de todos os tempos.

Wednesday, February 7, 2007

Thinking Photography


You're holding your breath because you know the pelican might fly away at any moment and then you know the boy might turn around and see you at any moment.

The wave is the defining moment of the picture.

In everything beautiful there is something strange.

A really great photograph is like a poem: it's a perfect thing within a frame. In a poem, if you take out a comma, you destroy the poem. And if you crop a good photograph, you will destroy it.

American Color
Constantine Manos
The world for me is just raw material for an image.

Eve Arnold or Why do I Love Color II

Joan Crawford

Steve McCurry or Why do I Love Color I


1. Nasir Bagh, Paquistão, 1984. 2. Rajasthan, Índia, 1983.

Ebony & Ivory or Why do I Love B&W II



1. Marilyn by Dennis Stock 2. Marilyn by Miguel Rio Branco 3. Sartre par Henri Cartier-Bresson 4. Paris par Henri Cartier-Bresson
Magnum Photos

Ebony & Ivory or Why do I Love B&W I



1. Marilyn & Simone Signoret by Bruce Davidson 2. Creta by Constantine Manos 3. Cuba by Eve Arnold

Tesourinhos não-deprimentes II

Adaptação televisiva da obra mais fundamental da minha formação literária. Favoritos: Os Cinco e os Contrabandistas, Os Cinco Salvaram o Tio, Os Cinco no Lago Negro, Os Cinco e a Planície Misteriosa, Os Cinco e os Raptores. Até o leite com natas e as conservas de cebola pareciam deliciosos...

Tesourinhos não-deprimentes I

I miss Emilia

É uma boneca de pano feita pela Tia Nastácia, com olhos de retrós preto, sobrancelhas lá em cima. Era muda até que engoliu a pílula da fala inventada pelo doutor Caramujo. A partir daí, fala como uma matraca. Emília é muito independente, a tal ponto que ela mesma se auto define como "independência ou morte". É também uma filósofa que acredita que "a verdade é uma espécie de mentira bem pregada das que ninguém desconfia".

Tudo isto e muito mais em www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/sitiodopicapau/

Tuesday, February 6, 2007

Bonelike® Words

Mede-se a medula de meia sílaba. Parte-se a sílaba pela cesura do verso, expõe-se a fractura métrica. Quebra-se os poros de cada palavra pela ponta mais frágil. Sobe o sangue aos acentos, traços coagulados. Incêndio nos pulmões da frase: vírgulas em chamas, a pele da página toda rachada. Lesões graves na respiração. Cura-se o ar da boca com a ponta dos dedos. O vento assobia nos ossos dos ss, uma rajada rasga o texto em restos de conversas perdidas. Palavras entremeadas (mais suculentas porque o osso dá gosto à carne). Lábios partidos. Brancos como o coração e as papoilas. Um pássaro atravessa o céu da boca. Como se curam os ossos que beijam? Os olhos não dobram quando as pupilas se ajoelham. Os olhos e suas rótulas, as imagens implantadas lá onde a pupila se dobra. A cicatriz do que se diz, a composição química do sentido, mineral. Uma língua biocompatível, sua fala lascada. Não esquecer: também as palavras têm ossos. Insubstituíveis. Wordlike® bones.


IN HONOREM DAMIEN RICE 9 CRIMES: Give my gun away when it's loaded. If you don't shoot it how am I supposed to hold it?

Monday, February 5, 2007

I Saturday Night Fever feat. DJay-Jay



Diz que foi a sua última performance como DJ.
Diz que quem esteve no Clubbing na Casa da Música não se conforma com a notícia.
Diz que Video Killed The Radio Star nunca mais será a mesma.
Diz que volta daqui a dois meses.
Para cantar.
So tell the girls that he is back in town.
Quem toca assim nunca deveria voltar para cantar.


NON-SMOKING AREA @ CASA DA MÚSICA

ESTÁTUA



Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor,- frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.

Camilo Pessanha

Thursday, February 1, 2007

Writer's Blog

Lendo Almada

Já uma vez entornei sem querer um bule de chá por cima dos Lusíadas e ficou muito melhor. Era chá de tília por causa do nervoso.

O jogo foi muito mais cheio de interesse do que tinha imaginado, mas a mais interessante de todas era precisamente a que jogava pior. Isto só pode acontecer no futebol feminino.

Eu gosto imenso dos jardins! e as flores são como eu, também gostam imenso dos jardins.
Se eu tivesse um jardim e fosse propriedade minha, à entrada punha este aviso: Apenas tem o direito de colher uma flor aquele que for capaz de morrer com ela!

Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser.

Tão tremendo como ficar-se um simples ingénuo por toda a vida é perder a ingenuidade para todo o resto da vida.

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade.

Lost in Translation

Qual era a natureza do Dom das línguas recebido pelos apóstolos? Quando lemos São Paulo (1 Cor, 14), podemos supor que se trata da glossolalia (e portanto do dom de se exprimir numa língua extáctica, que todo o mundo compreendia como se se tratasse da sua própria língua). Mas se lermos os Actos dos Apóstolos 2, diz-se que no Pentecostes veio do céu um estrondo, e que sobre cada um deles se colocaram as línguas de fogo, eles começaram a falar noutras línguas – e teriam recebido o Dom, senão da xenoglossia (isto é, do poliglotismo), pelo menos de um serviço místico de tradução simultânea. No primeiro caso, a possibilidade de falar a língua santa anterior à Torre de Babel teria sido dada aos Apóstolos. No segundo caso, ter-lhes-ia sido dada a graça de reencontrar em Babel não o signo de uma derrota e uma ferida a curar a qualquer preço, mas a chave de uma nova aliança e de um novo acordo.

Umberto Eco, La Ricerca della Lingua Perfetta