Thursday, July 3, 2008

Julio, Luísa

Julio
Aguarela da série Poeta
1975

É difícil acreditar em tanta frescura! Os azuis mais puros dos céus de verão, quando erguidos e lavados pela nortada, azuis-marinhos ou amassados com roxos da cor das esporas dos jardins antigos. Os rosas das rosas recém-abertas e os rubores doridos, do entardecer. O amarelo festivo e solar das dálias, tratadas com amor. Vermelhos-sangue ou da carnação, quente, das zínias. Verdes vegetais de olhos claros ou seivosos e sombrios como o das begónias. Castanhos de terra, crestada ou barrenta, da que gostamos de esfarelar entre os dedos. Cores estas laivadas a lilás, como páscoas floridas ou sublinhadas pelo véu dos sonhos nocturnos. Incorporam ainda os brancos, asa de gaivota ou da espuma batida a espedaçar-se, os brancos do papel intocado, como os desenhos das crianças que aproveitam a cal das paredes. São assim as aguarelas do Julio. Frescura das manhãs adolescentes. Transparência-água de um olhar interior.
Não representam a realidade. Nem sequer o puro sonho. Perseguem o símbolo e a essência das coisas, como a poesia.

Luísa Dacosta
Vila do Conde, Agosto de 1979

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