Wednesday, September 3, 2008

VV: Mulheres que são como lugares mal situados

Claude Debussy - Clair de lune
Found at skreemr.com

Aprendi o Debussy.
Aprendi o Baudelaire da Invitation au Voyage.
Aprendi o Pessanha.
Que há conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos.
Aprendi o Nobre e o Eugénio de Castro.
Aprendi o Ritmo.
Aprendi a Voz.
O Verso também.
Aprendi a Paixão do Almeida Faria.
Um cisne do Albano Martins.
Fomos ao teatro.
Apresentou-me o Vergílio Ferreira.
Vertigem aos 18 anos.
Aprendi que a Poesia está na ponta dos dedos de quem folheia os livros.

In memoriam Vera Vouga, um Verso que Voou


Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o rido das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.

Rui Costa

Sobre este dia precipitem as manhãs
E multipliquem os pássaros que cantam
E completo o Outono Venha
Folhas e folhas aspergindo a última respiração das coisas sobre a minha
Respiração
E todos os meus anos juntos se festejem de uma só vez e eu morra
Agora
E sobre este dia todos os dias
Desçam
Como inúmeras águas sobre uma gota de sangue.


Daniel Faria

8 comments:

Lusios said...

Querida Joana, ela era realmente bem situada: o mundo é que estava em muito má situação. Um abraço neste momento de dor e de gratidão.

Lusios said...
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Lusios said...
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Joana Blu said...

É bem verdade :). Um abraço, Francisco

Almeida Garrett said...

"A morte não é um bem.
Os próprios deuses o sabem.

Eles preferiram viver."

Sapho, séc.VII - VI a.C.

Anonymous said...

Caro senhor Garrett, prefiro, do mesmo poema, a tradução de Albano Martins na colecção da IN-CM de "o Essencial de Alceu e Safo":

"A morte é um mal. Assim os deuses
o entendem. Se o não fosse,
também eles morreriam"

Que acha?Isto do gosto...

Cumprimentos à Dona Rosa.

Almeida Garrett said...

Ilustríssimo Sr Lusios/Francisco
Conhecendo igualmente a tradução que refere prefiro a de David Mourão-Ferreira.
Gostos obviamente que se discutem!
Porque gosto mais de uma do que de outra? É um facto que tive conhecimento da tradução de Mourão-Ferreira primeiro e, creio, que residirá aqui parte da justificação da minha preferência. Subjectiva, claro está! Devo confessar que quando li "O Essencial de Alceu e Safo", fiquei curioso por saber se este poema estava incluído e, quase imediatamente, fui desejando que não estivesse para evitar a "desilusão".
Devo confessar que me aconteceu uma situação semelhante com um poema de Han Shan: a primeira versão, de Gil de Carvalho n'"Uma Antologia de Poesia Chinesa, da Assírio e uma "segunda" em "O Vagabundo do Dharma", da Cavalo de Ferro e versões de Ana Hatherly, por quem nutro uma enorme admiração!
Como não sei grego nem chinês fico grato por estas traduções-traições, que, apesar de tudo, me deixam aproximar da fonte.
A D. Rosa agradece e retribui cumprimentos ao quais junto os meus.
Joe Bat Garrett
[X]

Anonymous said...

Concordo inteiramente consigo, senhor J.B.Garrett, há preferências que são mesmo inexplicáveis. Já agora, acrescento uma terceira tradução, do Eugénio:

"É um mal morrer e os deuses bem o sabem;
se assim não fora, eles próprios morreriam."

Nestes vislumbres celestiais, cada um vai arrebatando com os olhos a sua estrela preferida...

Ainda teremos de pedir ao Frederico Lourenço que nos apresente a sua proposta, que acha?

Um forte abraço

www.lusios.blogspot.com