Friday, July 25, 2008

And so it is...

SEXTA 25 JULHO
ENCERRAMENTO DO TRINTAEUM

LINE UP

Carlos Coelho
Joana Matos Frias
Maria Gambina
Rui Torrinha
Pedro Tenreiro
Gonçalo Costa
António Alves
Tiago Dias


SPECIAL GUEST: Rui Trintaeum


Remembering...

RESIDÊNCIAS

31STEREOSOUND RUI TRINTAEUM
DANCIN’DAYS PEDRO TENREIRO
ARE YOU RE-EDIT? SOCIAL DISCO CLUB
BAUNILHA & CHOCOLATE RUI VARGAS
SLOW MOTION CARLOS COELHO
NIGHT TIME STORIES JOANA MATOS FRIAS


PROJECTOS ESPECIAIS

CARNAVAL RETROKITSCH JOANA MATOS FRIAS
FESTA DAS FLORES JOANA MATOS FRIAS
SUPER POP LIMÃO JOANA MATOS FRIAS
GROOVELICIOUS MARIANA CAMPO



CONVIDADOS NACIONAIS

OS SETE MAGNÍFICOS
RUI MAIA (X-WIFE)
JOHNWAYNES (COMPOST)
KA§PAR (GROOVEMENT)
MARIA GAMBINA
JOÃO MARIA
PIÑACOLADA
PAULO COSTA
DJ MAHARSHI
LAMPREIA
MAIN WEEL
REI LEAR
NEONLOGIC
DISKOTEK
PAULO MENÉRES



CONVIDADOS INTERNACIONAIS

KENNY DIXON JR. aka MOODYMANN (DETROIT - USA)
SILVESTRE (MANCHESTER - UK)
TOM WIELAND (7 SAMURAI, PANOPTIKUM, VIENA - ÁUSTRIA)
RUB-N-TUG (NYC - USA)
BARNA SOUND MACHINE (OSCID MUSIC, BARCELONA)
KARL INJEX (RUDE MOVEMENTS, NYC -USA)
RAINER TRUBY (TRUBY TRIO, COMPOST, ALEMANHA)
DANIEL BECKER (TRICKSKY, SONAR KOLLEKTIV, BERLIM)
MORGAN GEIST (METRO AREA, ENVIRON, NYC - USA)
MARCUS WORGULL (INNERVISIONS, ALEMANHA)
MATT DIDEMUS (JUNIOR BOYS, CANADÁ)

Tuesday, July 22, 2008

Elogio da Loucura

como bem se sabe, só há uma coisa mais louca do que a poesia e essa coisa é, precisamente, a crítica de poesia

Ruy Belo dixit

Fresquinho, fresquinho...

I still prefer Cat and Mouse (The Tremmuh EP [TRUEP089] listen to it), but...

Hint feat. Laura Vane, Keep Your Shirt On
(Driven from Distraction, Tru Thoughts, 07/2008)

Gosto deste verso. Porque gosto.

O vento parado nas vidraças

Edmundo de Bettencourt

Intelectualmente — e portanto artisticamente — falando (a arte não é mais do que uma manifestação distraída da inteligência), a sensibilidade é o inimigo. Não o inimigo que se nos opõe, como na guerra, mas o inimigo a quem nos opomos, como no amor. Há q vencer, pois, não por esmagamento, senão por sedução ou domínio. Chamar a sensibilidade para dentro da casa da inteligência; ou fazer a inteligência montar casa externa à sensibilidade.
Fernando Pessoa, Carta a Miguel Torga

Monday, July 21, 2008

A felicidade sentava se todos os dias ao peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.

Jorge de Sena

Friday, July 18, 2008

à luz do luar podemos

ver respirar o arvoredo

Edmundo de Bettencourt

Hold the tiger: Thinking about dinner


The Tiger

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

William Blake

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade

...and will also be playing...



Marvin Gaye, Sexual Healing (Red Astaire Remix)
OBS.: Red Astaire IS Freddie Cruger

...and will be playing....

Thursday, July 17, 2008

I'm coming...


www.whostolethesoul.blogspot.com/
www.myspace.com/jotaemeefe

whostolethesoul.blogspot.com/2008/07/temperamental-soul-convida.html

Friday, July 11, 2008

A & B

António Ferro, A Idade do Jazz-Band, 1924
Capa de Bernardo Marques

António Ferro, Hollywood, Capital das Imagens, 1931
Capa de Bernardo Marques

Beja II

SOROR MARIANA — BEJA

Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor

Sophia de Mello Breyner Andresen

Beja I

Escrito Num Livro Abandonado em Viagem

Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.

Álvaro de Campos

Thursday, July 10, 2008

Wednesday, July 9, 2008

Cai a tarde ao chão

René Magritte
Le Soir qui Tombe

Monday, July 7, 2008

Listening to...

se de uma ave morta
só o voo
passasse à minha porta

Saúl Dias

PÓ VOA

Ferdinando Scianna
Marrakesh


Porque ensaia o vento
constantemente

acrobacias de poeira...?

Saúl Dias

Thursday, July 3, 2008

Listening to...

Summertime
MFSB
standing for
Mother, Father, Sister, Brother


Julio, Luísa

Julio
Aguarela da série Poeta
1975

É difícil acreditar em tanta frescura! Os azuis mais puros dos céus de verão, quando erguidos e lavados pela nortada, azuis-marinhos ou amassados com roxos da cor das esporas dos jardins antigos. Os rosas das rosas recém-abertas e os rubores doridos, do entardecer. O amarelo festivo e solar das dálias, tratadas com amor. Vermelhos-sangue ou da carnação, quente, das zínias. Verdes vegetais de olhos claros ou seivosos e sombrios como o das begónias. Castanhos de terra, crestada ou barrenta, da que gostamos de esfarelar entre os dedos. Cores estas laivadas a lilás, como páscoas floridas ou sublinhadas pelo véu dos sonhos nocturnos. Incorporam ainda os brancos, asa de gaivota ou da espuma batida a espedaçar-se, os brancos do papel intocado, como os desenhos das crianças que aproveitam a cal das paredes. São assim as aguarelas do Julio. Frescura das manhãs adolescentes. Transparência-água de um olhar interior.
Não representam a realidade. Nem sequer o puro sonho. Perseguem o símbolo e a essência das coisas, como a poesia.

Luísa Dacosta
Vila do Conde, Agosto de 1979

Hotter than July


Lately
Hotter than July
1980

Bom como o pão

Peter Marlow
Borough Market
Londres 2006

Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa É bom como o pão e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas É bom como o pão e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira.

António Lobo Antunes

Wednesday, July 2, 2008

Há coisas fantásticas, não há?






Pierre Bonnard
(1867-1947)

Monday, June 30, 2008

O melro e o mocho

Prefiro Charlot a Chopin, porque aquele é melro e este é mocho.

Diogo de Macedo, 1927

A Fuga


ter na cabeça pincéis em vez de cabelos

Mário Eloy (1900-1951)

Friday, June 27, 2008

Super Pop Limão Preview II


Sebastien Tellier - Divine
Found at skreemr.com

Wednesday, June 25, 2008

Fora de Sena

Os anos passam; mas, dessa passagem,
a permanente essência em nós se cumpre,
que para testemunho só nascemos.

Mas de que falas tu? De ti? Do mundo?
Ou do intervalo em que te aceitas outro,
precisamente quando mais te julgam tu?

Jorge de Sena, Peregrinatio ad Loca Infecta

A MEIO DO CAMINHO

Fico entre o céu e a terra.
Choro só para dentro.
Sou como a árvore nua
que ao alto os ramos indica:
ergue as asas, mas não voa,
tem raízes, mas não desce.

Alberto de Lacerda

PhiloSophia

As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?

Sophia de Melo Breyner Andresen, Dia do Mar

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidas como pássaros


Sophia de Melo Breyner Andresen, Geografia

Venus was her name...

THE PICTURE

The eyes of this dead lady speak to me,
For here was love, was not to be drowned out.
And here desire, not to be kissed away.
The eyes of this dead lady speak to me.

Ezra Pound, Ripostes, 1912

Super Pop Limão Preview

Quand dire, c'est faire no Teatro São Luiz

How to Do Things With Words é um conjunto de conferências proferidas pelo inglês John Austin em Harvard e depois reunidas em volume (1951). Austin foi um filósofo da linguagem, próximo em alguns aspectos do pensamento de Wittgenstein, cujo trabalho demonstrou que muitos problemas filosóficos são fundamentalmente problemas de linguagem e que a linguagem deve ser compreendida no seu uso quotidiano. Para Austin, as palavras não são meramente declarativas; se algumas dizem coisas, outras são performativas, ou seja, fazem coisas. Tudo depende de códigos, contextos, circunstâncias.

Deus disse: faça-se luz. E a luz fez-se.

Como Fazer Coisas com as Palavras consiste numa selecção de excertos significativos dos textos de Austin, respeitados no seu sentido analítico mas adaptados para efeito de legibilidade dramatúrgica. O conceito do espectáculo consiste na aproximação entre a conferência e a comédia verbal.

Ricardo Araújo Pereira interpreta o Conferencista. O Conferencista está sozinho em palco durante aproximadamente 70 minutos, apenas com um palanque e alguns objectos úteis, coadjuvado nos seus exemplos por dois figurantes. Como Fazer Coisas com Palavras é uma aula de filosofia dada através de recursos cómicos”.

Texto J. L. Austin
Dramaturgia - Ricardo Araújo Pereira e Pedro Mexia
Direcção de Actores - Dinarte Branco
Cenografia e figurinos - António Jorge Gonçalves
Música original - Armando Teixeira
Desenho de Luz - Thomas Walgrave
Interpretação - Ricardo Araújo Pereira
Co-produção - SLTM ~ Produções Fictícias

De 27 de Junho a 5 de Julho - Terça a sábado, às 22h00
Sessão com interpretação em língua gestual portuguesa - 28 de Junho, sábado, às 22h00

SALA PRINCIPAL - Tel. 213 257 650
M/16

Site - Teatro São Luiz

Friday, June 20, 2008

Palavras aladas

Este sono tão doce de me alongar no chão
para ouvir bater as asas das palavras nas raízes!

José Gomes Ferreira

Julio, Vítor

Julio, 1938


É de nós que nasce agora
a madrugada.

(Nunca teremos tudo
e já não precisamos
de mais nada)

Vítor Matos e Sá, Companhia Violenta

Thursday, June 19, 2008

Chico, 64

Elogio dos Títulos

O Grito Claro

Sobre o Rosto da Terra

Respirar a Sombra

Boca Incompleta

O Incêndio dos Aspectos

O Incerto Exacto

No Calcanhar do Vento

António Ramos Rosa

Wednesday, June 18, 2008

L'Anniversaire

Marc Chagall, L'Anniversaire


La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.

Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,

Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.

Paul Éluard

31 Stereosound goes 44

I'm sure you will agree
It couldn't fit more perfectly
Than to have a world party
on the day you came to be...


Friday, June 13, 2008

The Truly Great

I think continually of those who were truly great.
Who, from the womb, remembered the soul's history
Through corridors of light where the hours are suns
Endless and singing. Whose lovely ambition
Was that their lips, still touched with fire,
Should tell of the Spirit clothed from head to foot in song.
And who hoarded from the Spring branches
The desires falling across their bodies like blossoms.

What is precious is never to forget
The essential delight of the blood drawn from ageless springs
Breaking through rocks in worlds before our earth.
Never to deny its pleasure in the morning simple light
Nor its grave evening demand for love.
Never to allow gradually the traffic to smother
With noise and fog the flowering of the spirit.

Near the snow, near the sun, in the highest fields
See how these names are fŠted by the waving grass
And by the streamers of white cloud
And whispers of wind in the listening sky.
The names of those who in their lives fought for life
Who wore at their hearts the fire's center.
Born of the sun they traveled a short while towards the sun,
And left the vivid air signed with their honor.

Stephen Spender
remembering N.M.

Sunday, June 8, 2008

we must be kind with each other while we still have time

Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas
Para Nuno Morais (31.12.1973-08.06.2008)


Thursday, June 5, 2008

Night Time Stories Tonight @ Trintaeum

Playing #

Also playing #


Wednesday, June 4, 2008

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra.

Adília Lopes

Wednesday, May 28, 2008

Tuesday, May 27, 2008

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.


Herberto Helder

Ed Mundo

E a pobre realidade
era uma cinza…: já nada me recordava
se, de entre ela, uma faúlha
não me queimasse os sentidos.


Edmundo de Bettencourt (1899-1973)

Wednesday, May 21, 2008

My Blueberry Nights is Cat Power




Cat Power - The Greatest


Found at skreemr.com

Por que gosto do Surrealismo? Porque sim.


















Cruzeiro
Seixas

Alma até Almada

Almada Negreiros, Namoro

Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.

Tonight my baby wears a Pollar

no espaço curvo nasce um crisantempo
Haroldo de Campos


KELLEY POLAR - CHRYSANTHEMUM

What's in a title? That which we call a garden
By any other title would sound as sweet:

Love Songs of the Hanging Gardens
, 2005
I Need You To Hold On While The Sky Is Falling
, 2008

Tuesday, May 20, 2008

A poesia, como toda a arte verdadeira,
é realista mesmo sem querer.

Óscar Lopes

Wednesday, May 14, 2008

Let me introduce you to...

Baby Charles
Baby Charles - I Bet You Look Good On The Dancefloor (Arctic Monkeys c
Found at skreemr.com


www.babycharles.co.uk
www.myspace.com/babycharlesband

Anamorfose de Arcimboldo


O poeta entra na frutaria pelo verso dentro,
dispõe diversas formas de fruto, entre
o círculo e o eclipse, a curva e a maçã.
Não enumera o poema todas as espécies
por instinto de preservação estética. O certo
é que o poeta vê que se ilumina um rosto
e o peito nu, brinco, anel, hermafrodita
imagem que se excita só. Muda na peça a postura,
e outro corpo noutras formas e funções
ardentemente se revela ardente em si.
Como aqui se vê.

Sai da frutaria, suca o contorno ao verso
e disfruta.

Luís Adriano Carlos
Livro de Receitas

O Problema do Gosto



















Não gostei.

Tuesday, May 13, 2008

eu gosto intensamente do amarelo,

talvez porque só ele, exacto, corresponde

a um pedaço de sol poisado no cabelo

Saúl Dias

Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas

Odilon Redon
Ophelia, 1910

Ai deixa, deixa lá que a Poesia
no perfume das flores, no quebrar
das ondas pela praia,
na alegria
das crianças que riem sem porquê
– deixa-a lá que se exprima, a Poesia.

Fica sentado aí aonde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços:
deixa-a viver em si;
não tentes segurá-la nos teus braços,
não pretendas vesti-la com palavras...

Se a queres ter,
se a queres sempre ver pairando à flor das coisas, fica aí
no teu cantinho, e nem respires, Poeta, e não te bulas,
pra que ela não dê por ti.

Não a faças fugir, toda assustada
com a tua presença...
Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas,
que ela não sabe que a viste,
nem sabe que está nua,
nem sequer sabe que existe ...


À flor da vaga, o seu cabelo verde

John Everett Millais
Ophelia, 1852

- Quem esqueceu no quarto do bordel
a «Ofélia» de Millais,
adormecida-morta no lago verde-azul?

Vestida de noivar,
tem os cabelos soltos
e rosas sobre o peito...

As mãos poisam de leve,
como plantas de água...

Sereno,
o rosto oblongo
das filhas de Albion...

E toda beijada da folhagem...

- Quem esqueceu no quarto do bordel
a «Ofélia» de Millais?

Saúl Dias

Wednesday, May 7, 2008

Bridge Over Troubled Water

Night Time Stories Preview

THURSDAY, 11 P.M., @ TRINTAEUM


Monday, May 5, 2008

Julius Pincas

Jules Pascin (1885-1930)
Girl with a Doll

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

A música do jazz
vibrava no café.

À noite,
o velho «High-Life»
era o tempo magnífico
onde Chaplin,
como o Deus da Sistina,
erguia o braço
condenando e perdoando...
(Desengonçado
o piano
acompanhava
com notas de Beethoven
«O Peregrino», «A quimera»...)

E numa tarde
em Paris
ajoelhei, em plena rua,
diante dum quadro de Pascin...

Nesse tempo
eu faltava às aulas.

Saúl Dias,
Gérmen, 1960