Ao fim de um dia cansativo no gabinete, em que toda a minha atenção se concentrara no projecto da nova biblioteca de Ravenna e me levara a passar parte da hora de almoço a compor sucessivos desenhos sobre guardanapos de papel, e após um lento regresso ao apartamento em que vivo com a Paola, em parte devido à certeza de não a encontrar à minha espera, em parte para libertar o pensamento dos esquissos e traçados que o haviam ocupado durante tanto tempo, encontrei, na caixa do correio, entre inúteis folhetos publicitários e dois sobrescritos de aparência institucional, uma carta do meu filho, que me apressei a abrir, onde ele me anunciava que não seria pai. O texto era breve e estava impresso numa folha branca, demasiado branca, sem uma única palavra escrita à mão, nem mesmo o nome no fim a assinar, permitindo pensar que outra pessoa o teria redigido, mas eu não quis admitir essa possibilidade, embora ela talvez me houvesse tranquilizado um pouco. Com a carta na mão esquerda, aberta sobre a restante correspondência, detive‑me à saída do elevador, como se de repente tivesse esquecido o que fazia ali e as escadas à minha direita e a porta em frente não me fossem familiares, como se as paredes tivessem adquirido uma redobrada espessura para que não me restassem dúvidas sobre a sua opacidade, sobre a total impossibilidade de as transpor, como se o mundo quisesse excluir‑me e anunciasse o seu propósito com uma violência silenciosa. Não me mexi quando a luz das escadas se apagou e fiquei rodeado por uma escuridão quase total, apenas contrariada pela clarabóia do telhado, que deixava passar suficientes vestígios de uma noite clara ou da iluminação pública para que o meu olhar forçasse o negrume e aos poucos recuperasse os contornos das formas que me cercavam. Só consegui libertar‑me da imobilidade quando ouvi uma porta a abrir‑se e, por não ter conseguido localizar a proveniência do som, receei que se tratasse da vizinha de cima e que ela pudesse descer pelas escadas e me encontrasse ali parado, à porta de casa, em completo silêncio, o que teria aproveitado de imediato para me acusar de estar a espiá‑la, de andar a espiá‑la há muito tempo, como já uma vez dissera. Falaria em voz muito alta, como então havia feito, para que os outros moradores do prédio ouvissem e aparecessem nos patamares, provocaria um escândalo para gritar mal de mim e da Paola, por isso abri depressa a porta do apartamento e meti‑me lá dentro antes sequer de acender uma luz. Tacteei até à sala e atirei‑me para cima de um sofá, onde, no intuito de me libertar da agitação nervosa e irracional que crescera dentro de mim nos últimos minutos, abandonei os papéis e as chaves que me ocupavam as mãos e massajei lentamente o rosto com as pontas dos dedos. Enquanto repetia o movimento devagar, para forçar a minha respiração a adaptar‑se a esse ritmo e regressar à sua cadência habitual, pensava que não deveria ter aberto a carta sem a presença da Paola, não deveria sequer ter aberto a caixa do correio, nunca deveria ter feito nada tão potencialmente perigoso sem que a Paola estivesse por perto e pudesse intervir e acalmar‑me se tal fosse necessário. Tentei imaginar o que ela me teria dito se estivesse comigo naquele momento, mas esse esforço, que me obrigou a rever mentalmente a carta pousada ao meu lado e a rememorar cada uma das palavras do meu filho, ao invés de permitir que eu recuperasse alguma serenidade, apenas serviu para agravar a ansiedade de que procurava libertar‑me. Quase saltei do sofá em direcção à janela mais próxima, movido por uma intensa e inesperada sufocação, para abri‑la de par em par e engolir o ar quente do exterior nocturno. O meu olhar derivou da rua estreita e pouco iluminada, por debaixo daquela janela, até aos clarões eléctricos da avenida perpendicular, onde se situava a entrada do prédio, para regressar ao ponto de partida e se deter sobre o toldo de um pequeno restaurante a que eu e a Paola costumávamos recorrer com alguma regularidade à hora de jantar, mas não conseguiu que o nome do meu filho Álvaro, em caracteres demasiado negros sobre uma superfície branca, como uma cortina hesitante entre a transparência e a opacidade, desistisse de me ocupar o pensamento. O ruído dos carros na avenida misturava‑se à voz neutra do meu filho, tal como eu o imaginava a dizer‑me as palavras que preferira escrever, tal como eu o imaginava a contar que a Maria caíra desamparada nas escadas do prédio e, ainda que tivesse sido logo socorrida por ele, que a levara de imediato ao serviço de urgência de um hospital central, perdera a criança que deveria nascer dali a três meses. A concluir a carta, o meu filho assegurava‑me que a mulher estava bem, mas não deveria ser inquietada com telefonemas sobre o seu estado de saúde, para que a memória pudesse limpar‑se, como ele dizia, numa expressão que me causou alguma repugnância, sem que eu compreendesse imediatamente porquê.»
Wednesday, April 1, 2009
O Mundo Sólido de João Paulo Sousa
Ao fim de um dia cansativo no gabinete, em que toda a minha atenção se concentrara no projecto da nova biblioteca de Ravenna e me levara a passar parte da hora de almoço a compor sucessivos desenhos sobre guardanapos de papel, e após um lento regresso ao apartamento em que vivo com a Paola, em parte devido à certeza de não a encontrar à minha espera, em parte para libertar o pensamento dos esquissos e traçados que o haviam ocupado durante tanto tempo, encontrei, na caixa do correio, entre inúteis folhetos publicitários e dois sobrescritos de aparência institucional, uma carta do meu filho, que me apressei a abrir, onde ele me anunciava que não seria pai. O texto era breve e estava impresso numa folha branca, demasiado branca, sem uma única palavra escrita à mão, nem mesmo o nome no fim a assinar, permitindo pensar que outra pessoa o teria redigido, mas eu não quis admitir essa possibilidade, embora ela talvez me houvesse tranquilizado um pouco. Com a carta na mão esquerda, aberta sobre a restante correspondência, detive‑me à saída do elevador, como se de repente tivesse esquecido o que fazia ali e as escadas à minha direita e a porta em frente não me fossem familiares, como se as paredes tivessem adquirido uma redobrada espessura para que não me restassem dúvidas sobre a sua opacidade, sobre a total impossibilidade de as transpor, como se o mundo quisesse excluir‑me e anunciasse o seu propósito com uma violência silenciosa. Não me mexi quando a luz das escadas se apagou e fiquei rodeado por uma escuridão quase total, apenas contrariada pela clarabóia do telhado, que deixava passar suficientes vestígios de uma noite clara ou da iluminação pública para que o meu olhar forçasse o negrume e aos poucos recuperasse os contornos das formas que me cercavam. Só consegui libertar‑me da imobilidade quando ouvi uma porta a abrir‑se e, por não ter conseguido localizar a proveniência do som, receei que se tratasse da vizinha de cima e que ela pudesse descer pelas escadas e me encontrasse ali parado, à porta de casa, em completo silêncio, o que teria aproveitado de imediato para me acusar de estar a espiá‑la, de andar a espiá‑la há muito tempo, como já uma vez dissera. Falaria em voz muito alta, como então havia feito, para que os outros moradores do prédio ouvissem e aparecessem nos patamares, provocaria um escândalo para gritar mal de mim e da Paola, por isso abri depressa a porta do apartamento e meti‑me lá dentro antes sequer de acender uma luz. Tacteei até à sala e atirei‑me para cima de um sofá, onde, no intuito de me libertar da agitação nervosa e irracional que crescera dentro de mim nos últimos minutos, abandonei os papéis e as chaves que me ocupavam as mãos e massajei lentamente o rosto com as pontas dos dedos. Enquanto repetia o movimento devagar, para forçar a minha respiração a adaptar‑se a esse ritmo e regressar à sua cadência habitual, pensava que não deveria ter aberto a carta sem a presença da Paola, não deveria sequer ter aberto a caixa do correio, nunca deveria ter feito nada tão potencialmente perigoso sem que a Paola estivesse por perto e pudesse intervir e acalmar‑me se tal fosse necessário. Tentei imaginar o que ela me teria dito se estivesse comigo naquele momento, mas esse esforço, que me obrigou a rever mentalmente a carta pousada ao meu lado e a rememorar cada uma das palavras do meu filho, ao invés de permitir que eu recuperasse alguma serenidade, apenas serviu para agravar a ansiedade de que procurava libertar‑me. Quase saltei do sofá em direcção à janela mais próxima, movido por uma intensa e inesperada sufocação, para abri‑la de par em par e engolir o ar quente do exterior nocturno. O meu olhar derivou da rua estreita e pouco iluminada, por debaixo daquela janela, até aos clarões eléctricos da avenida perpendicular, onde se situava a entrada do prédio, para regressar ao ponto de partida e se deter sobre o toldo de um pequeno restaurante a que eu e a Paola costumávamos recorrer com alguma regularidade à hora de jantar, mas não conseguiu que o nome do meu filho Álvaro, em caracteres demasiado negros sobre uma superfície branca, como uma cortina hesitante entre a transparência e a opacidade, desistisse de me ocupar o pensamento. O ruído dos carros na avenida misturava‑se à voz neutra do meu filho, tal como eu o imaginava a dizer‑me as palavras que preferira escrever, tal como eu o imaginava a contar que a Maria caíra desamparada nas escadas do prédio e, ainda que tivesse sido logo socorrida por ele, que a levara de imediato ao serviço de urgência de um hospital central, perdera a criança que deveria nascer dali a três meses. A concluir a carta, o meu filho assegurava‑me que a mulher estava bem, mas não deveria ser inquietada com telefonemas sobre o seu estado de saúde, para que a memória pudesse limpar‑se, como ele dizia, numa expressão que me causou alguma repugnância, sem que eu compreendesse imediatamente porquê.»
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Friday, March 27, 2009
Great Things I'm Gonna Miss... II
Not So Blue
Belleruche
Anything You Want (Not That)
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Great Things I'm Gonna Miss...
A nova música "bárbara" de Quantic
Will Holland, o inglês "digger" supremo, o responsável pela revelação tardia da magnífica Spanky Wilson, o músico de bom gosto inatacável que viaja mundo fora para descobrir o "groove" (onde quer que ele se encontre), esse mesmo que conhecemos como Quantic vive neste momento em Cali, Colômbia.
Em anos anteriores, dedicou-se a reconstruir o funk, devolvendo-lhe um calor orgânico e uma elegância irresistíveis. Agora, fascinado pela música latino-americana do passado - essa que nunca chegámos a ouvir, essa que incorporava o balanço do funk (Holland segue-lhe sempre na peugada) em expressões musicais locais -, montou um estúdio na Colômbia e reuniu à sua volta um grupo de músicos que nomeou Combo Bárbaro.
Conheceremos aquilo que anda a congeminar em Julho, data da edição do seu novo álbum. Amanhã, oportunidade única para antever o que aí virá num DJ set, no Musicbox, onde está garantida a presença da música "bárbara" que vem gravando do outro lado do Atlântico.
O set de Quantic será antecedido por um de Mike Stellar e, antes deles, há concerto dos portugueses More Than a Thousand.
Público/Ípsilon
2. Jazz Cafe
Mean Fiddler presents Belleruche + Joe Driscoll + DJ Rob Luis (Tru Thoughts) | ||
| Fri 8 May || Doors 7pm || £12.50adv Belleruche's innovative live show, using turntables, loopers, a guitar and a microphone has impressed audiences worldwide. Their two albums (TSM & The Express) combine heartfelt melodies with twisted scratched drums, snap sharp snares with chopped vintage basslines, and broken blues guitars with hook filled songs. | ||
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1:46 PM
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Thursday, March 26, 2009
Lendo Daniel
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos — digo,
As mulheres — ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos — no pescoço das mães — ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
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9:12 AM
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Tuesday, March 24, 2009
Sylvia, your son is gone with the wind
LADY LAZARUS
[...]
Dying
Is an art, like everything else,
I do it exceptionally well.
I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I've a call.
It's easy enough to do it in a cell.
It's easy enough to do it and stay put.
It's the theatrical
Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:
'A miracle!'
That knocks me out.
There is a charge
For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart-
It really goes.
And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood
Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.
I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby
That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.
Ash, ash -
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there----
A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.
Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.
Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.
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Joana Blu
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12:08 PM
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Wednesday, March 11, 2009
Discussing Frost, Yeats, Larkin
No Second Troy
Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great.
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?
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3:15 AM
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Tuesday, March 3, 2009
Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nela.
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Joana Blu
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9:55 AM
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O Leitor, ainda.
SOBRE UM VERSO DE MARINA TSVETÁIEVA
Todos os poetas são judeus,
todos marcados
por uma estrela negra,
quer seja rosa ou amarela.
Todos caminham para o sul
fatigados, não da luz
crua das dunas: do peso
morto dessa estrela.
Eugénio de Andrade
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7:57 AM
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Friday, February 27, 2009
A Banalidade do Mal. E a do Amor.
a lady with a little dog.
Chekhov

two go up into my bed so that, lying together
in the bed of love, we may then have faith and trust in each other."
I would not be willing to go to bed with you unless
you can bring yourself, O goddess, to swear me a great oath
that there is no other evil hurt you devise against me."
So I spoke, and she at once swore me the oath, as I asked her.
But after she had sworn me the oath, and made an end of it,
I mounted the surpassingly beautiful bed of Circe.
Homero

Hannah Arendt
Eichmann in Jerusalem
A Report on the Banality of Evil
Can take away your life
but not give you death instead.
Sarah Kane
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4:03 AM
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Monday, February 16, 2009
Fresquinho fresquinho
Enough Said
(feat. Quantic Soul Orchestra)
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2:25 AM
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Thursday, February 12, 2009
Tuesday, February 10, 2009
Projecto Clarice (Lispector)
Clarice Lispector
Um Sopro de Vida
assim como se deforma num lago ondulante e instável
o reflexo de um rosto
Clarice Lispector
Um Sopro de Vida
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3:35 AM
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FOTOGENIA
Rostros
Muecas
Visajes
Acordes faciales
de la emoción iluminada
Gestos dardeantes
Rostros tendidos como arcos tensionales
clavan la flecha fotogénica
en la pantalla cinemática
En el taller ante los focos voltaicos
los músculos se distienden
con avidez expresional
Los cuerpos sufren corrientes de alta frecuencia
El arqueamiento ciliar de los ojos
pespuntea las emociones
Todo el cuerpo posee aletas
y nada meridianamente en el estanque de luz
Los cineactores son dinamómetros emocionales
Gira el conmutador de los nervios
Ellogaritmo de la movilidad
en el relieve táctil del primer plano
Oh elocuencia plástica de Hayakawa!
Claridades
Dinamismos
Fotogenia
Un corte transversal de la vida
Las calles contorsionadas
Figuras que saltan entre la red multiplicada
Juego de imágenes en los espejos verticales
Rostros crispados de los transeuntes
al compás de los timbres y klaxons
Todos los elementos flotantes de la realidad
adquieren categoría plástica
Los gestos cotidianos
se valorizan y realzan
Vida subterránea deI detalle
ante el objetivo standard
Una estación trepidante vaivenes sincopados
Un puerto balcón a lontananzas
Hangars nidos de hélices
Las calles revolotean
entre las gentes embriagadas
En el kilómetro 247 la sierpe
Peligro de muerte
Aminorad la velocidad
Las carreteras saltan los obstáculos
El tiralíneas de la avenida subraya la ciudad
Los mecánicos domadores
sacan chispas con el látigo de la electricidad
sobre la piel de los inductores
Luchas boxeo de las esquinas
Actuación deI lirismo muscular
Trayectorias insondables
La Vida
recorta sus perfiles fotogénicos
Biología psíquica ante el acelerador
Vida de la hiperrealidad sensibilizada
que descubre el rayo del Cinema
y perfora una nueva dimensión plástica
Fragante pintura animada
Film puro sin anécdota
Los continentes desnudan su piel
Profundidad
Armonía fotogénica
El drama vibra en la celulosa
Y la imantación retiniana
volatiliza las sugestiones cinéticas
Los seres desgajan sus rostros
y las cosas proyectan su alma
Imágenes
Claridades
Fotogenia
Hélices, 1923
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3:06 AM
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Monday, February 9, 2009
Son image ne l'est pas.
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8:40 AM
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Thursday, January 29, 2009
Wednesday, January 21, 2009
Motown is 50 Final Countdown
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8:54 AM
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Tuesday, January 13, 2009
Friday, January 9, 2009
Greguerías
Como daba besos lentos duraban más sus amores.
El lector como la mujer ama más a quien más lo ha engañado.
Meteorología: mentirología.
En el billete de ida y vuelta tememos que nos perforen la vuelta en vez de la ida, obligándonos a volver al revés, comenzando por ir otra vez para poder volver de nuevo.
Escribir con lápiz es marcar sólo la sombra de las palabras.
El mar sólo ve viajar: él no ha viajado nunca.
El diván es una cama que no tiene pies ni cabeza.
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8:55 AM
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Thursday, January 8, 2009
Disco Mood: Thank You, Social Disco Club
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11:59 AM
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Song of Himself
Ni un solo momento, viejo hermoso Walt Whitman,
he dejado de ver tu barba llena de mariposas,
ni tus hombros de pana gastados por la luna,
ni tus muslos de Apolo virginal,
ni tu voz como una columna de ceniza;
anciano hermoso como la niebla
que gemías igual que un pájaro
con el sexo atravesado por una aguja,
enemigo del sátiro,
enemigo de la vida
y amante de los cuerpos bajo la burda tela.
Ni un solo momento, hermosura viril
que en montes de carbón, anuncios y ferrocarriles,
soñabas ser un río y dormir como un río
con aquel camarada que pondría en tu pecho
un pequeño dolor de ignorante leopardo.
(...)
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Elogio da Cegueira
Un obrero con gafas es lamentable. Por sus gafas descubre más la injusticia de su suerte, la ve mejor, la ve como un caballero, como un hombre de ciencia, como un intelectual. Esos obreros de blusa azul que gastan gafas entristecen más la esclavitud de sus compañeros y parece que merecen otro trato, que entienden de otra cosa y se han tenido que dedicar al duro trabajo por fatalidad. Apiadan sus gafas, no les hacen compañeros y se teme su mirada.
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Ut pictura poesis non erit
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Wednesday, January 7, 2009
Monday, January 5, 2009
Friday, January 2, 2009
Receita de Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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Wednesday, December 31, 2008
Tuesday, December 30, 2008
And so let’s take a last look-around, and say Farewell to all
Events that gave the last decade, which this New Year
Brings to its close, a special pathos. Let us fill
One final fiery glass and quickly drink to the ‘Pre-War’
Before we greet ‘the Forties’, whose unseen sphinx-face
Is staring fixedly upon us from behind its veil;
Drink farewell quickly, ere the Future smash the glass.
Ano Novo de 1940
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Jazzanova + Ben Westbeech = Perfect Match
E haverá melhor forma de acabar musicalmente 2008?
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Tuesday, December 23, 2008
Oratio for the Day After
Well, so that is that. Now we must dismantle the tree,
Putting the decorations back into their cardboard boxes -
Some have got broken - and carrying them up to the attic.
The holly and the mistletoe must be taken down and burnt,
And the children got ready for school. There are enough
Left-overs to do, warmed-up, for the rest of the week -
Not that we have much appetite, having drunk such a lot,
Stayed up so late, attempted - quite unsuccessfully -
To love all of our relatives, and in general
Grossly overestimated our powers. Once again
As in previous years we have seen the actual Vision and failed
To do more than entertain it as an agreeable
Possibility, once again we have sent Him away,
Begging though to remain His disobedient servant,
The promising child who cannot keep His word for long.
The Christmas Feast is already a fading memory,
And already the mind begins to be vaguely aware
Of an unpleasant whiff of apprehension at the thought
Of Lent and Good Friday which cannot, after all, now
Be very far off. But, for the time being, here we all are,
Back in the moderate Aristotelian city
Of darning and the Eight-Fifteen, where Euclid's geometry
And Newton's mechanics would account for our experience,
And the kitchen table exists because I scrub it.
It seems to have shrunk during the holidays. The streets
Are much narrower than we remembered; we had forgotten
The office was as depressing as this. To those who have seen
The Child, however dimly, however incredulously,
The Time Being is, in a sense, the most trying time of all.
For the innocent children who whispered so excitedly
Outside the locked door where they knew the presents to be
Grew up when it opened. Now, recollecting that moment
We can repress the joy, but the guilt remains conscious;
Remembering the stable where for once in our lives
Everything became a You and nothing was an It.
And craving the sensation but ignoring the cause,
We look round for something, no matter what, to inhibit
Our self-reflection, and the obvious thing for that purpose
Would be some great suffering. So, once we have met the Son,
We are tempted ever after to pray to the Father;
"Lead us into temptation and evil for our sake."
They will come, all right, don't worry; probably in a form
That we do not expect, and certainly with a force
More dreadful than we can imagine. In the meantime
There are bills to be paid, machines to keep in repair,
Irregular verbs to learn, the Time Being to redeem
From insignificance. The happy morning is over,
The night of agony still to come; the time is noon:
When the Spirit must practice his scales of rejoicing
Without even a hostile audience, and the Soul endure
A silence that is neither for nor against her faith
That God's Will will be done, That, in spite of her prayers,
God will cheat no one, not even the world of its triumph.
(who else could it be?)
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Disco da Semana
A voluptuous journey through 70s French Erotic Cinema
Selected by Monsieur Clouseau & Lord Library


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Friday, December 19, 2008
Caos Calmo, Música Improvável
| Rufus Wainwright - Cigarettes And Chocolate Milk (Reprise) | ||
| | ||
| Found at skreemr.com |
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Friday, December 12, 2008
Thursday, December 11, 2008
Manoel de Oliveira, Sem Anos
E eis, entre nós, a grande novidade do Douro: Ser uma obra de arte».
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Wednesday, December 10, 2008
Fairy Tale
Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.
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Friday, November 28, 2008
Tuesday, November 25, 2008
Saturday, November 15, 2008
Wednesday, November 12, 2008
This is not bossa nova
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Vou te contar...: 50 Anos de Bossa Nova Preview
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Tuesday, November 11, 2008
Purple Atumn
My orchid, my picThere is a flower that bees prefer,
And butterflies desire;
To gain the purple democrat
The humming-birds aspire.
And whatsoever insect pass,
A honey bears away
Proportioned to his several dearth
And her capacity.
Her face is rounder than the moon,
And ruddier than the gown
Of orchis in the pasture,
Or rhododendron worn.
She doth not wait for June;
Before the world is green
Her sturdy little countenance
Against the wind is seen,
Contending with the grass,
Near kinsman to herself,
For privilege of sod and sun,
Sweet litigants for life.
And when the hills are full,
And newer fashions blow,
Doth not retract a single spice
For pang of jealousy.
Her public is the noon,
Her providence the sun,
Her progress by the bee proclaimed
In sovereign, swerveless tune.
The bravest of the host,
Surrendering the last,
Nor even of defeat aware
When cancelled by the frost.
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voyeurs
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