Thursday, August 27, 2009

Monday, July 20, 2009

comme l'amour

La poésie se fait dans un lit comme l’amour
Ses draps défaits sont l’aurore des choses
La poésie se fait dans les bois

Elle a l’espace qu’il lui faut
Pas celui-ci mais l’autre que conditionnent

L’oeil du milan
La rosée sur une prêle
Le souvenir d’une bouteille de Traminer embuée sur un
plateau
d’argent
Une haute verge de tourmaline sur la mer
Et la route de l’aventure mentale
Qui monte à pic
Une halte elle s’embroussaille aussitôt

Cela ne se crie pas sur les toits
Il est inconvenant de laisser la porte ouverte
Ou d’appeler des témoins

Les bancs de poisson les haies de mésanges
Les rails à l’entrée d’une grande gare
Les reflets des deux rives
Les sillons dans le pain
Les bulles du ruisseau
Les jours du calendrier
Le millepertuis

L’acte d’amour et l’acte de poésie
Sont incompatibles
Avec la lecture du journal à haute voix

Le sens du rayon de soleil
La lueur bleue qui relie les coups de hache du bûcheron
Le fil du cerf-volant en forme de coeur ou de nasse
Le battement en mesure de la queue des castors
La diligence de l’éclair
Le jet des dragées du haut des vieilles marches
L’avalanche

La chambre aux prestiges
Non messieurs ce n’est pas la huitième Chambre
Ni les vapeurs de la chambrée un dimanche soir

Les figures de danse exécutées en transparence au-dessus
des mares
La délimitation contre un mur d’un corps de femme au
lancer de
poignards
Les volutes claires de la fumée
Les boucles de tes cheveux
La courbe de l’éponge des Philippines
Les lacets du serpent corail
L’entrée du lierre dans les ruines
Elle a tout le temps devant elle

L’étreinte poétique comme l’étreinte de chair
Tant qu’elle dure
Défend toute échappée sur la misère du monde.

André Breton, Poèmes, 1948


È bello scrivere perché riunisce le due gioie:

parlare da solo e parlare a una folla.

Cesare Pavese
Il Mestiere di Scrivere
4 de Maio de 1949

Friday, July 17, 2009

40 anos sem Coltrane...

Cinepoema


Martin Parr
Copacabana
1996



O preto no branco
Manuel Bandeira


O preto no banco
A branca na areia
O preto no banco
A branca na areia
Silêncio na praia
De Copacabana.

A branca no branco
Dos olhos do preto
O preto no banco
A branca no preto
Negror absoluto
Sobre um mar de leite.

A branca de bruços
O preto pungente
O mar em soluços
A espuma inocente
Canícula branca
Pretidão ardente.

A onda se alteia
Na verde laguna
A branca se enfuna
Se afunda na areia
O colo é uma duna
Que o sol incendeia.

O preto no branco
Da espuma da onda
A branca de flanco
Brancura redonda
O preto no banco
A gaivota ronda.

O negro tomado
Da linha do asfalto
O espaço imantado:
De súbito um salto
E um grito na praia
De Copacabana.

Pantera de fogo
Pretidão ardente
Onda que se quebra
Violentamente
O sol como um dardo
Vento de repente.

E a onda desmaia
A espuma espadana
A areia ventada
De Copacabana
Claro-escuro rápido
Sombra fulgurante.

Luminoso dardo
O sol rompe a nuvem
Refluxo tardo
Restos de amarugem
Sangue pela praia
De Copacabana...

Vinicius de Moraes

Thursday, July 16, 2009

Se não é um dos muitos fuzilados das Espanhas,
Renascido de uma vala comum,
Será um Ulisses que não achou regresso,
Ou não quis achá-lo, preferindo
O cálice capitoso da viagem.
Fala muitos demóticos, mas na torrente
Apenas se percebe um fragmento
Decerto legado pelos deuses – «tontería».
Ei-lo agora à porta
De supermercados incompreensíveis:
Sorri e bebe à saúde de toda a gente,
Uma cortesia que o torna suspeito, indesejável.
De Inverno, raramente dorme
Para prosseguir a sua viagem;
Não quer sonhos, que acabam sempre
Nos baixios de qualquer manhã,
Nem se quer perder do mar
Que o embala durante todo o Verão
Numa ressaca de constelações.

Nuno Morais, Últimos Poemas

ÚLTIMOS POEMAS, DE NUNO MORAIS

A arte da tristeza e da atenção

António Guerreiro
Expresso, 9 de Julho de 2009

Um livro de poesia trabalhado e amadurecido como uma 'obra' singular e acabada.

Este é um livro póstumo. Por uma nota biográfica incluída na badana e também pelo prefácio de Joana Matos Frias, ficamos a saber que Nuno Rocha Morais nasceu no Porto em 1973, foi jornalista do "Comércio do Porto", depois de ter terminado o curso de Línguas e Literaturas Modernas, e de 1999 até à data da sua morte - 8 de Junho de 2008 - foi tradutor da Comissão Europeia, no Luxemburgo. Esse prefácio crítico e introdutório dá-nos também a informação de que o autor deixou o livro organizado e de que o título - "Últimos Poemas" - é aquele com que, desde os 20 anos, tinha decidido inaugurar o seu percurso de poeta. Mas essa inauguração em livro foi diferida, e até agora só alguns poemas tinham sido publicados em revistas.

Os cerca de cem poemas que constituem este livro valem como uma 'obra', sem nada de avulso, sem concessões generosas ou piedosas que as circunstâncias poderiam propiciar - uma 'obra' que irrompe com força na cena da poesia portuguesa actual e com a qual temos de contar.

A característica principal desta poesia consiste em manter vivo, em vários planos, um estado de tensão que lhe dita a complexidade e a torna refractária a classificações disponíveis. Antes de mais, a tensão formal entre a regra classicizante do equilíbrio e da harmonia e o imperativo moderno da liberdade e do desregramento. Veja-se, por exemplo, como este poema (pág. 127) entra nas regiões do sinistro e do irrepresentável sem abandonar, no entanto, a solidez formal, o rigor expressivo e o modo sóbrio: "Pequeno, quase caseiro, o campo./ Em torno, maciços, os Vosges./ Os meus passos afundam-se/ Na terra húmida e mole./ Vindas de todo o lado/ No vento que o arame esgarça,/ Uivam as alcateias do terror./ E por todo o lado irrompe o vento,/ Osso furando a pele/ Deste espaço quieto e gelado,/ Desta memória com olhos/ Maiores do que o rosto."

Tensão importante é também aquela que deriva da relação que os poemas estabelecem com as suas mediações literárias. Esta é uma poesia culta, e o diálogo com outros poetas é muitas vezes explicitado. Porém, essas referências são incorporadas como matéria que o texto elabora sem o hiato da mediação. Excepção a esta regra é um texto em prosa intitulado "Um Método", designado como um "exercício pongiano" (pág. 71). Mas mesmo aqui temos uma declinação completamente idiomática da escrita de Francis Ponge. Nuno Rocha Morais não chega ao ponto de reescrever, para uso próprio e à maneira de uma arte poética explícita, o "My Creative Method" pongiano (a Ponge, ele vai buscar uma qualidade: a exactidão), mas a questão do método não lhe é de modo nenhum indiferente. Podemos, aliás, dizer que essa questão é responsável por uma outra tensão: aquela entre as emoções e a contemplação intelectual, entre a relação com o mundo e os outros, que é da ordem das afecções e que é determinada por uma atitude analítica.

Estes são os dois pólos que dinamizam a poesia deste autor e que fazem com que a sua poesia se erga num intervalo entre a ponderação reflexiva e as forças emotivas obscuras: "Vou por vielas sombrias,/ Só pensamento e passos,/ Com os olhos afundados em espiral./ Que operações do espírito/ Se entregam a estes passos?/ Vou pelas espirais sombrias/ Daqueles que não têm amor,/ Vielas sombrias como perguntas sem resposta,/ Entranhando-se numa cidade animal,/ De desejos mal iluminados" (pág. 53). E eis-nos chegados a outro ponto, também ele um campo de tensões: entre a harmonia austera de uma poesia que nomeia a presença com uma exactidão própria da fórmula e a atitude discretamente elegíaca que nasce de um lamento, de uma perda, de uma impossibilidade de proferir os nomes divinos capazes de dominar o mundo.

Tomai lá do O'Neill

Auto-retrato

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...


Alexandre O'Neill

Wednesday, July 15, 2009

OS LOUCOS

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.

António Osório


Dennis Stock
Iowa, 1969

Dia de Drummond

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade



A meus filhos desejo
a curva do horizonte.

António Osório


Miguel Rio Branco
Jangadeiros
Bahia, 1981

Sunday, July 12, 2009

Wednesday, July 8, 2009

5 na tela, 5 na sala...












Nina Simone - Wild is the Wind
Found at skreemr.com


THE END

Monday, July 6, 2009

ÚLTIMOS POEMAS, DE NUNO MORAIS

Um real que seja fabuloso
Pedro Mexia
Ípsilon, 3 de Julho de 2009

Notável estreia póstuma de um poeta com uma estética, um pensamento e uma poética

Que uma primeira colectânea de poemas se chame "últimos poemas" parece uma ironia. Aqui, é uma ironia trágica. Nuno Rocha Morais, que foi jornalista e tradutor, morreu o ano passado, aos 34 anos, deixando um punhado de poemas publicados em revistas e bastantes inéditos, entre os quais os aqui coligidos.

É quase inevitável pensarmos em Daniel Faria, que morreu aos 28 e também deixou uma obra vasta e de alta qualidade. É aliás possível que a recepção destes "Últimos Poemas" seja de algum modo perturbada, digamos assim, pelo facto de serem últimos, pela sua condição de surpresa e despedida. Isso não impede que se diga, com alguma certeza, que "Últimos Poemas" é um dos mais belos livros da poesia portuguesa recente.

Dois elementos chamam imediatamente a atenção. Um é o "culturalismo", que aqui se desdobra em alusões, citações ou homenagens a Elizabeth Bishop, Zbigniew Herbert, Kavafis, Ponge, Apollinaire, ou a esse olímpico Goethe que achava escritores como Kleist simples "fedelhos". O culturalismo não é de todo novidade na poesia portuguesa, mas estes diálogos culturais não são solenes e entediantes, nem casuais e aleatórios; há uma lógica e uma unidade em cada poeta invocado, uma variedade nos versos e no tom dos versos que indicia uma aprendizagem poética longamente cultivada.

O segundo elemento manifesta-se no início dos versos assinalado com maiúscula, o que pode supor um certo classicismo. É um engano. Esta poesia nunca tenta efeitos de modernidade espúria e fácil, mas também não é exactamente clássica. É mais justo dizer que ela cultiva um certo acabamento, um não-espontaneísmo, aquilo a que Joana Matos Frias, no prefácio, chama uma impessoalidade que não é um fingimento. Há um Ulisses que regressa a casa e não é reconhecido por ninguém, há um Cristo que procura o "amor que o poupasse ao sacrifício", há guelfos e gibelinos, há uma recorrência de palavras raras (prófugo, mavórcio), mas tudo isso aparece tão naturalmente como a realidade mais imediata e comezinha.

A mais frequente dessas aparições tem a ver com a experiência de viver no estrangeiro (Nuno Rocha Morais trabalhava para a Comissão Europeia). Em terreno desconhecido, ou só conhecido pelas rotinas diárias, o poeta observa personagens, a sua estranheza ou banalidade, o seu mistério de "seres lacunares". Muitas vezes, a paisagem é de desolação: "Os esqueletos de metal dos guindastes, / Como mastodontes num museu de história natural; / É preciso ver cruzar, na distância, / As luzes penadas, desencarnadas, de um comboio, / Ver as chispas torturadas que as suas rodas / Arrancam aos carris; / É preciso sentir a respiração ofegante, / Moribunda, das árvores sob a primeira neve, / Farejando o fim em curso, que as retomará, / Mudado já em princípio iminente" (pág. 99). Mas o exílio e a desolação são atenuados por episódios eróticos, vividos ou imaginados, sempre algo felizes e algo melancólicos. É o caso do poema sobre as raparigas estónias: "Aprendem a exprimir sentimentos em francês / Servidos por um escanção, / Mas gostam de dizer que não têm alma, / Nunca tiveram - proibida durante décadas, / Acabou por definhar, desistir / Destes corpos altos, esguios, / Produto de qualquer pacto com o diabo. / Embora tão bálticas, não são por isso menos gregas; / Cépticas, custa-lhes a crer que o sol italiano / Seja tão incondicional na sua graça, / Que o céu possa ser tão sem censura" (pág. 39).

O exílio é uma figuração de um tema central destes poemas, que avançam sem cronologia, com núcleos temáticos tendenciais. Esse tema é a separação. A separação do casal, desde logo, a mão que de repente já não está no ombro: "Foi assim que partiste, a meio do meu nome, / Com o meu nome partido ao meio, / De que só me ficou o oco / E é de dentro dele que uma voz escura se derrama, / Incrédula e com medo, incrédula e com medo. / À volta, tudo continua, a grande montra do mundo, / O comércio de vivos e mortos, / A respirar dióxidos e monóxidos / Da ilusão de que a vida continua" (págs. 88-89). Mas também a separação radical da morte, fortíssima nos poemas familiares que evocam uma infância paradisíaca soterrada pela morte de uma avó. É isso que nos leva às incontáveis referências fúnebres, "o baque com o que terra nos recebe", versos que lidos agora parecem de mau agoiro.

Perante a morte, é preciso evitar uma tentação: a "tentação de corrigir a vida". Somos o que somos, e depois desaparecemos. Mas ainda assim levamos daqui uma espécie de ética triste: " (...) tentar o bem nosso / Pelo bem dos outros / Já não é sequer o mal menor, / Cansados de mais, brutos de mais, / Nós mesmos de mais, / Sempre morais numa impossível / E exaltada falta de paciência, / Numa pressurosa falta de ternura, / Nós sempre tão corredios, / Sárdonicos até nos estertores" (pág. 24). Há em Nuno Rocha Morais uma estética, um pensamento e uma poética. Quando ele escreve que a "única fantasia" é "Supor a existência de um real / Que não seja fabuloso" diz-nos quase tudo, mas deixa uma ambiguidade essencial: "fantasia", em linguagem poética, é o oposto de "fantasia" em linguagem comum.

Prémio Lemniscata

No passado dia 22 de Junho, o Jorge do blog BabeldoJorge teve a simpatia de distinguir a Dobra dos Olhos com o Prémio Lemniscata. O prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos leitores. Tem ainda a beleza de se inspirar na designação da curva geométrica com a forma semelhante à de um 8, graficamente muito próxima do 8 deitado que simboliza o infinito. Na sua origem etimológica, «lemniscato» significa «ornado de fitas», e refere-se à fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores.

De acordo com o regulamento do Prémio, a Dobra passa então a nomear os 7 blogs que, no seu entender, merecem também uma fita desta coroa [ordenados alfabeticamente] :


valter hugo mãe & mr. esgar, por casadeosso
Eduardo Pitta & João Paulo Sousa, por Da Literatura
Tiago Sousa Garcia, por Livros [s]em Critério
Francisco Saraiva Fino, por Lusios
Patrícia Lino, por Projecto Clarice
Social Disco Club, por Social Disco Club
Anónimo [NLF], por Unified Deep Rhythms

Tuesday, June 30, 2009

Uns dizem que os meus versos são tristes,
outros que são abstractos.
Mas eu não tenho culpa que a carne da inteligência
seja triste, e inteligente.
Eu preferia que os meus versos fossem
alegres e estúpidos.
Mas, se fossem, não haveria os meus versos.
Os meus versos disseram sempre direito
aquilo que saiu errado quando o quisa fazer
como se a vida fosse a poesia.
Mas eu continuo a crer na poesia.
A vida que tenha paciência.

Adolfo Casais Monteiro

A MANHÃ NO CAFÉ DESERTO

Café.
Ruídos abafados.
É como se a vida fosse calafetada.
Quase silencio.
Os ruídos da rua chegam por este corredor fora
Como enfraquecidos da viagem.
Aqui ao fundo a sombra é maior,
Hoje que chove lá fora,
Miudamente.
Tepidez.
Folheio livros, distraído,
Por aqui ser inútil fingir qualquer acção.
Estar aqui sozinho é viver intensamente,
Estar aqui silencioso e recolhido
Dá não sei que ciência de todos os segredos do fluir da vida.
O café: acumulador de todos os destinos aqui suspensos um momento.
Nesta atmosfera densa permanece a síntese de todos os caminhos
Aqui onde o silencio existe a esta hora da manhã,
Existe apesar dos ruídos,
Segunda atmosfera suspensa e doce,
Alheia ao que não seja a sua compenetrada reflexão
Sobre o surdo ressoar das vidas que por aqui se fixaram um momento.
Planalto para onde todos trouxeram a descansar a agitação das suas vidas
Que puseram ao lado a acalmar sobre os longos divãs de couro,
E onde vieram beber na espessa bebida negra a paz momentânea ou mais excitação.

Paz.
Lusco-fusco.
Alheamento.
Aqui até a nossa vida nos é um espectáculo
Exterior como um filme ao fundo da sala em trevas.
Café,
Meu amigo!


Adolfo Casais Monteiro

Tuesday, June 23, 2009

do sal, ainda

DUALISMO, UNIDADE

Um saleiro.
Um pimenteiro.
Dentro sal num.
Noutro pimenta.
Uma só forma
para duas cores.
A mesma ideia.
Qual escolhes tu:
sal e pimenta
ou a tua alma?

Nem forma ou cor:
tempero.

Ruy Cinatti

e porque hoje é s. joão, o dia é de música muito tuga

Saturday, June 20, 2009

o sal da língua

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

Thursday, June 18, 2009

Wednesday, June 17, 2009

thinking about abba great covers



M.C. Escher, 17 Junho 1898









isto sim é um governo alternativo com alternativas verdadeiras

GOVERNO - Meio Bicho e Fogo from 8 e Meio on Vimeo.



«meio bicho e fogo» é o primeiro tema do projecto musical governo.

composto por miguel pedro (fundador de bandas como mão morta e mundo cão) com letra de valter hugo mãe.
o projecto governo é composto por antónio rafael (também dos mãos morta) nas teclas, henrique fernandes no contrabaixo, miguel pedro na percussão e programações e valter hugo mãe na voz.

a animação do vídeo é da autoria de esgar acelerado, com desenhos de sara macedo e do próprio.

«meio bicho e fogo» é o tema com que o governo participa na compilação «novos talentos fnac 2009»

myspace.com/ogoverno

Saturday, June 13, 2009

WorldWide Festival: haverá algum festival de verão melhor do que este?!

Worldwide Festival embraces Sete (South of France) with open arms for a 4th consecutive year, returning to power with its faith and trust in Sete’s diversely cultural and Mediterranean outlook to life, love and music. Come the 2nd of July and Sete is home to an array of the worlds most outstanding and upfront cutting edge artists, musicians and DJs. Laurent Garnier live, Gilles Peterson, Diplo, Todd Terje, Theo Parrish, Carl Craig, Jimi Tenor live, LeFtO, Mocky live, Sébastien Schuller live, Soil & "Pimp" Sessions live, Principles Of Geometry, DJ Suv, Stereotyp's KU BO Project, Fuzati, the bPm, Sundae, Son Of Kick, Jazzamar, Elan Mehler live, Dorian Concept live, Martyn, Aline & Da Vince, Garfld, James Stewart, Boozig aka Velcon, Michael Rutten, Trus'me, Earl Zinger, DJ Oil, Shuya Okino, Jazzanova Alex Barck dj set, Fulgeance live, dOP live.

http://www.worldwidefestival.com/


Friday, June 12, 2009

Escrever

Grossistas de palavras

A crer no que disseram os jornais, Carolina Salgado declarou ao tribunal ser escritora de profissão.

E, tanto quanto sei, devia estar sob juramento.

E não lhe tremeu a voz.

E não corou.

Suponhamos agora que ela chegava e dizia, por exemplo, que era advogada. Ou juíza. O que é que lhe acontecia?

Porque para todas as profissões se requerem estudos, habilitações, trabalho esforçado, provas dadas. Para todas - menos para a de escritor. Que é, cada vez mais, uma profissão muito mal frequentada…

Ainda não há muito tempo um jornalista da nossa praça, depois de ter publicado um primeiro romance, também declarava que qualquer um podia ser escritor.

Mal comparado, isto é assim como se uma pessoa que fosse muito habilidosa a coser bainhas se sentisse com todo o direito de coser a barriga de um desgraçado na sala de operações.

Claro que hoje qualquer um pode publicar um livro ou paga do seu bolso, ou encontra uma editora que vá na conversa. Até porque os motivos que levam à escrita cada vez são mais estranhos, e o sucesso cada vez mais rápido, sob os holofotes das câmaras de televisão e das capas das revistas.

Emagreci 30 quilos? Escrevo um livro.

Mas logo a seguir engordei 20 quilos, e o meu homem bate-me todos os dias? Escrevo um livro.

Tramei o namorado que por acaso era do jet-set? Escrevo um livro.

Apareci duas vezes numa telenovela e dei três autógrafos? Escrevo um livro.

Desapareceu-me a bagagem no voo de Cancun? Escrevo um livro.

Descobri que o meu namorado é um crápula e me engana com a sobrinha da porteira que tem menos 20 anos do que ele? Escrevo um livro.

Digamos que é assim uma réplica com vagas pretensões literárias da frase que repetia aquela boneca à entrada da tenda de uma astróloga na velha Feira Popular "um escudo, um escudo, que a Dora diz tudo!"…

É claro que os livros aguentam algumas semanas nos escaparates - enquanto o público se lembra das caras de quem os escreveu, ou chora pelas suas desgraças. Depois esquece tudo, até porque, entretanto, já há outros desgraçados a aparecer, e é preciso sofrer por outras tragédias -e os livros somem. Será que hoje ainda alguém se lembra do título do livro que escreveu aquele Mário, concorrente de um dos "Big Brother", que depois até esteve preso (não, não foi por causa de ter assassinado o português…)?

Publicar um livro, por si só, não faz de ninguém um escritor.

Aqui no meu bairro houve em tempos uma agência turística. Fraca, sem rasgo, aguentou muito pouco tempo. Mas o dono, honestamente, intitulava-se "grossista de viagens".

Aí está "grossista de palavras" talvez não fosse má designação para esses que de vez em quando publicam umas coisas que, à primeira vista - e porque somos um país de míopes -, até parecem livros.

Mas ainda o pior de tudo é pensar que, para haver livros tem de haver papel; e para haver papel tem de haver árvores.

É então que recordo, com saudade, o meu amigo José Palla e Carmo quando dizia "Meu Deus, a quantidade de árvores que é preciso deitar abaixo para se fazer papel de parvo…"

Alice Vieira

Manhã de Junho

Talvez, talvez sejam os últimos
dias. Se for assim, são um esplendor.
Apesar dos aviões da Nato despejarem
bombas e bombas no Kosovo, a perfeição
mora neste muro branco
onde o escarlate
da flor da buganvília sobe ao encontro
da luz fresca da manhã de Junho.
A beleza (não há outra palavra
para dizê-lo), desta manhã
é terrível: persiste, domina –
apesar dos aviões, mesmo com
bombas a cair e crianças a morrer.

Eugénio de Andrade

Sunday, June 7, 2009

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

Saturday, June 6, 2009

ÚLTIMOS POEMAS, DE NUNO MORAIS




Mársias e a cintigrafia


Mársias cintila. É belo assim recortado,
Mudado por Apolo numa paisagem radioactiva.
O deus, com grandes incêndios, deu início
A uma caça à alma, ainda e sempre a monte.
Apolo é paciente, sabe que nada
Sobreviverá à devastação química
Com que fará pagar o desafio de Mársias –
Ter apregoado a impiedade do sol,
Ter-se jactado — O sol é meu inimigo –
Para se arrancar à sua insignificância.
Apolo não o esfolará vivo:
Reserva-lhe pior – uma sorte de laboratório.
Apolo admira os músculos tangidos,
A precisão dos órgãos,
O brilho viscoso das vísceras,
A coralina arborescência
De vasos, veias, fibras,
O impulso arquitectónico de um grito,
A polpa pulsante do vivo em agonia –
Apolo ama esta luz que tudo arranca.
Sobretudo, é preciso que Mársias
Suplique ainda alguma clemência divina,
Para que a sua carne se torne mais funda,
O seu sangue, mais rico,
Para que a dor se expanda
Seguindo essa esperança condutora
Que o deus, com um sopro, fará vã.

Nuno Morais, Últimos Poemas
Quasi, 2009

Friday, June 5, 2009

Geo grafia

O Uruguai é um belo país da América do Sul, limitado ao norte por Lautréamont, ao sul por Laforgue, a leste por Supervielle. O país não tem oeste. As principais produções do Uruguai são: Lautréamont, Laforgue, Supervielle. O Uruguai conta com três habitantes: Lautréamont, Laforgue, Supervielle, que formam um governo colegiado. Os outros habitantes acham se exilados no Brasil visto não se darem nem com Lautréamont, nem com Laforgue, nem com Supervielle.

Murilo Mendes, Poliedro

Uma vez propus lhe esta questão:
Nós dois estamos aqui nesta sala há uns vinte minutos, conversando. Vinte minutos multiplicados por dois fazem quarenta minutos. Portanto estamos aqui há quarenta minutos, não é ?

Murilo Mendes, A Idade do Serrote

La poésie veut quelque chose d'énorme,
de barbare et de sauvage.

Diderot, De la Poésie Dramatique, 1758

Thursday, June 4, 2009

todd terjeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee



Isaac Hayes - Moonlight Lovin' (Todd Terje edit)

Wednesday, June 3, 2009

eu gosto muito do valter hugo mãe da maria da graça e até da quitéria

o que haveria de surpreender deus era fácil de escolher, um cif líquido marine que ganhasse braços e pernas e fosse muito bem educado para as coisas da limpeza. ai a educação dos objectos, ria-se a maria da graça, já pensaste bem, se aprendessem o que lhes disséssemos e se comportassem direito sem refilar. a quitéria respondeu, tu estás louca, mulher, dá-te por feliz de teres este palácio para passar com cif e cillit bang, porque isto de trabalhar para gente rica com produtos de gabarito é mais fácil duas vezes. achas que isto é do estado. sei lá. deve ser. ajax fabuloso lava-tudo opção montanha. cala-te, não me faças rir.
por vezes, aparecia um serviço maior, uma limpeza profunda numa casa qualquer que se ia vender, que se ia finalmente habitar ou simplesmente que se poria pronta para a páscoa ou outra festa qualquer. aquele casarão era antigo, escadas de pedra, tijoleiras desenhadas havia cem anos, os vidros cheios de madeirinhas a entrecortar, quase como vitrais de igreja, mas sem cores. as duas apreciavam sobretudo a ajuda dos bons produtos de limpeza para aquela aventura de dois dias. se deus viesse à terra dos trabalhadores poderia encarnar numa embalagem destas. eu entenderia que deus fosse uma neoblanc azul denso-activa com pernas e braços e uns olhos a saírem daqui de dentro, porque é muito bonita, não respinga e cumpre a sua função como nenhuma outra. talvez devesse usar esta com o augusto. a maria da graça riu-se e respondeu, e achas que tenho dinheiro para o matar com uma lixívia gourmet. que é isso, perguntou a outra. é o caviar das lixívias. que palavras sabes tu, maria da graça.

valter hugo mãe
o apocalipse dos trabalhadores

Tuesday, June 2, 2009

o resto da lição

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

Lição

Não faças poesia com o corpo

Carlos Drummond de Andrade

Monday, June 1, 2009

Feels like Nina today...

Like a child again

Children waitin' for the day they feel good

Happy birthday, happy birthday
Made to feel the way that every child should




Like a child again




Tuesday, May 26, 2009

Saisir l'oeil par le monocle.

Paul Eluard e Benjamin Péret

JOÃO BÉNARD DA COSTA – 10 FILMES DA SUA E DA NOSSA VIDA

Em homenagem a João Bénard da Costa, a Medeia Filmes exibe, no Teatro do Campo Alegre, de 28 de Maio a 6 de Junho, 10 dos «filmes da sua vida», dos catálogos da Atalanta Filmes e Costa do Castelo.

Sobre a sua escolha (Os Filmes da Minha Vida, 1º e 2º volumes, Ed. Assírio & Alvim), JBC escrevia:

«Não vou ser – nunca serei – objectivo. Não vou servir “pronto-a-vestir”, como os que invariavelmente encabeçam as invariáveis listas dos “melhores filmes de todos os tempos”. Melhores, só os melhores para mim. (...)

«Ao lembrar os 50 melhores filmes da nossa vida resisti como pude e como posso. Dei testemunho do que vai durar contra o que parece que está para durar, para citar uma das minhas frases favoritas, de um certo George Bernanos.»


Here’s looking at you, kid...


JOÃO BÉNARD DA COSTA – 10 FILMES DA SUA E DA NOSSA VIDA


quinta, 28 Maio, OPINIÃO PÚBLICA / A WOMAN OF PARIS, Charlie Chaplin, 1923


sexta, 29 Maio, AURORA / SUNRISE, Friedrich W. Murnau, 1927


sábado, 30 Maio, FATALIDADE / DISHONORED, Joseph von Sterberg, 1931


domingo, 31 Maio, O EXTRAVAGANTE SR RUGGLES / RUGLES OF THE RED GAP, Leo McCarey, 1935


segunda, 1 Junho, VONTADE INDÓMITA / THE FOUNTAINHEAD, King Vidor,1949


terça, 2 Junho, SENTIMENTO / SENSO, Luchino Visconti, 1954


quarta, 3 Junho, DEUS SABE QUANTO AMEI / SOME CAME RUNNING, Vincent Minelli,

1958


quinta, 4 Junho, VERTIGO / A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES, Alfred Hitchcock, 1958


sexta, 5 Junho*, A BELA IMPERTINENTE / LA BELLE NOISEUSE, Jacques Rivette, 1991


sábado, 6 Junho, O SOL DO MARMELEIRO / EL SOL DEL MEMBRILLO, Victor Erice, 1992


Sessões às 18h30_22h, excepto A BELA IMPERTINENTE, às 21h.

Bilhetes a 3,50 euros.

L'Amoureuse

Elle est debout sur mes paupières
Et ses cheveux sont dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir.
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.

Paul Eluard, Mourir de ne pas Mourir

Sunday, May 24, 2009

Tuesday, May 19, 2009

Monday, May 18, 2009

A Song

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish you sat on the sofa
and I sat near.
The handkerchief could be yours,
the tear could be mine, chin-bound.
Though it could be, of course,
the other way around.

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish we were in my car
and you'd shift the gear.
We'd find ourselves elsewhere,
on an unknown shore.
Or else we'd repair
to where we've been before.

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish I knew no astronomy
when stars appear,
when the moon skims the water
that sighs and shifts in its slumber.
I wish it were still a quarter
to dial your number.

I wish you were here, dear,
in this hemisphere,
as I sit on the porch
sipping a beer.
It's evening, the sun is setting;
boys shout and gulls are crying.
What's the point of forgetting
if it's followed by dying?

Joseph Brodsky

Tuesday, May 12, 2009

Home is

...so Sad

Home is so sad. It stays as it was left,
Shaped to the comfort of the last to go
As if to win them back. Instead, bereft
Of anyone to please, it withers so,
Having no heart to put aside the theft

And turn again to what it started as,
A joyous shot at how things ought to be,
Long fallen wide. You can see how it was:
Look at the pictures and the cutlery.
The music in the piano stool. That vase.

Philip Larkin

Wednesday, May 6, 2009

Sunday, May 3, 2009

Dia Douro





Monday, April 27, 2009

Humano, demasiado humano

Filme da semana
E do mês
Filme do ano
Quem sabe de uma vida...

Carl Th. Dreyer
La Passion de Jeanne d'Arc

1928










Friday, April 17, 2009

Tuesday, April 14, 2009

Colar



Man Ray, Necklace (or Anatomy)

Wednesday, April 1, 2009

Vôo com abril nas mãos

Murilo Mendes

EM ABRIL, O LUGAR DA CASA

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade