Monday, December 13, 2010

Friday, December 10, 2010

Mozart

Requiem de Mozart

Ouço-te, ó música, subir aguda
à convergente solidão gelada.
Ouço-te, ó música, chegar desnuda
ao vácuo centro, aonde, sustentada
e da esférica treva rodeada,
tu resplandeces e cintilas muda
como o silente gesto, a mão espalmada
por sobre a solidão que amante exsuda
e lacrimosa escorre pelo espaço
além de que só luz grita o pavor.
Ouço-te lá pousada, equidistante
desse clarão cuja doçura é de aço
como do frágil mas potente amor
que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

Ó música da morte, ó vozes tantas
e tão agudas, que o estertor se cala.
Ó música da carne amargurada
de tanto ter perdido que ora esquece.
Ó música da morte, ah quantas, quantas
mortes gritaram no que em ti não fala.
Ó música da mente espedaçada
de tanto ter sonhado o que entretece,
sem cor e sem sentido, no fervor
de sublimar-se nesse além que és tu.
Ó vida feita uma detida morte.
Ó morte feita um inocente amor.
Amor que as asas sobre o corpo nu
fecha tranquilas no possuir da sorte.

Jorge de Sena

Thursday, December 9, 2010

09.12.1977

Monday, November 22, 2010

POEMAS COM CINEMA


Ó Cinema, ó maravilha

em que eu me possuiria,

mas que apenas possuo

da sombra,

na minha solidão da multidão quieta,

entre as carícias do silêncio ao pensamento,

sem esforço levado

a sofrer, a sentir

o que de eterno há num momento!


Edmundo de Bettencourt

Sunday, October 24, 2010

Nova epístola para os poetas oitocentistas


Está ali, de costas para Caspar David, no alto
de um promontório negro, o que significa que ele
prolonga ainda mais além o olhar do pintor
e sobretudo a respiração, que inspira e expira o Mar.

Fiama, ainda

Lições de Anatomia Estética: Encore II

Estes pinheiros dialogam

com a boca do horizonte.
Riem como quem rasga
o abdómen dos ventos.

FHPB

Saturday, October 23, 2010

hedda, c'est moi


Teatro Nacional São João | Salão Nobre

[23 Outubro 2010]

sábado 17:00

“Estás a olhar para onde?”:

paisagens ibsenianas nos palcos contemporâneos

conversa com Jorge Silva Melo, Maria João Luís, Nuno Cardoso,

Patrick Sourd

moderação Alexandra Moreira da Silva

one of many good things

Friday, October 22, 2010

Lições de Anatomia Estética: Encore

PorNegrito olhos que mastigam. Pelos dedos

onde descansa a minha medula encostada.

Fiama

Depois, a Poesia tornou-se tão presente

que aceitei que me debicasse nas pálpebras.

Fiama, Fiama

Fiama em chamas

Serei eu a vítima

das chamas se as devorar
com os meus dentes presos às imagens
dos olhos que imaginam.

Fiama Hasse Pais Brandão
Área Branca

Tuesday, October 5, 2010



Apprends à penser avec douleur.


Maurice Blanchot
L’Écriture du Désastre
1980

Monday, October 4, 2010

o cisne

para a Fiama,
que não gosta de cisnes e escreveu «Cisne»

(O cisne persegue a Fiama no quintal
a Fiama persegue o cisne no poema
sarada a mão direita da poetisa
a poetisa pode escrever sobre o cisne
(de ódio de cisne e de ócio de Fiama
se faz a literatura portuguesa
minha contemporânea)
depois a Fiama persegue o cisne no quintal
durante um quarto de hora
e o cisne persegue a Fiama no poema
pela vida fora)

Adília Lopes

Thursday, September 16, 2010

hoje...


Museu Soares dos Reis

Também eu vi no ângulo obscuro
De um salão a harpa coberta de pó,
Entre móveis e faianças,
Um pó de música inerte,
À espera de sedas roçagantes,
Da graça e do riso das debutantes,
Do deslizar espectral de contradanças,
Um debate sobre Céfalo e Prócris
Ou a audácia da mão mareando
Esfaimada sobre as nádegas
De uma ninfa na Ilha dos Amores –
Que os corpos de todas as debutantes
Neste mesmo salão prometeram ser.

Nuno Morais, Últimos Poemas




Wednesday, September 8, 2010

microscópio

Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos, na pequenez imponderável, na cintilação de sal e oiro que me desgasta os olhos. O inventor de jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:

“O que lhe falta é um microscópio. Arranje-o depressa, transforme os grãos imperceptíveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados científicos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem.”

Carlos de Oliveira

Wednesday, September 1, 2010

september, 1

I sit in one of the dives

On Fifty-second Street

Uncertain and afraid

As the clever hopes expire

Of a low dishonest decade:

Waves of anger and fear

Circulate over the bright

And darkened lands of the earth,

Obsessing our private lives;

The unmentionable odour of death

Offends the September night.


Accurate scholarship can

Unearth the whole offence

From Luther until now

That has driven a culture mad,

Find what occurred at Linz,

What huge imago made

A psychopathic god:

I and the public know

What all schoolchildren learn,

Those to whom evil is done

Do evil in return.


Exiled Thucydides knew

All that a speech can say

About Democracy,

And what dictators do,

The elderly rubbish they talk

To an apathetic grave;

Analysed all in his book,

The enlightenment driven away,

The habit-forming pain,

Mismanagement and grief:

We must suffer them all again.


Into this neutral air

Where blind skyscrapers use

Their full height to proclaim

The strength of Collective Man,

Each language pours its vain

Competitive excuse:

But who can live for long

In an euphoric dream;

Out of the mirror they stare,

Imperialism's face

And the international wrong.


Faces along the bar

Cling to their average day:

The lights must never go out,

The music must always play,

All the conventions conspire

To make this fort assume

The furniture of home;

Lest we should see where we are,

Lost in a haunted wood,

Children afraid of the night

Who have never been happy or good.


The windiest militant trash

Important Persons shout

Is not so crude as our wish:

What mad Nijinsky wrote

About Diaghilev

Is true of the normal heart;

For the error bred in the bone

Of each woman and each man

Craves what it cannot have,

Not universal love

But to be loved alone.


From the conservative dark

Into the ethical life

The dense commuters come,

Repeating their morning vow;

'I will be true to the wife,

I'll concentrate more on my work,'

And helpless governors wake

To resume their compulsory game:

Who can release them now,

Who can reach the dead,

Who can speak for the dumb?


All I have is a voice

To undo the folded lie,

The romantic lie in the brain

Of the sensual man-in-the-street

And the lie of Authority

Whose buildings grope the sky:

There is no such thing as the State

And no one exists alone;

Hunger allows no choice

To the citizen or the police;

We must love one another or die.


Defenseless under the night

Our world in stupor lies;

Yet, dotted everywhere,

Ironic points of light

Flash out wherever the Just

Exchange their messages:

May I, composed like them

Of Eros and of dust,

Beleaguered by the same

Negation and despair,

Show an affirming flame.


W. H. Auden


Sunday, August 29, 2010

é preciso beber água gelada

Perdoa, não sabia que cantavas
em sossego, silenciosamente. Neste calor
é preciso beber água gelada; também convém
não adorar ídolos, por exemplo a imagem
que aí trazes de ti e te atormenta
(ou me atormenta a mim?).
Outros exemplos incluem jardins de babilónia,
erupções do etna, o efeito
afrodisíaco do diamante,
as ciências da educação.
Vou-me sentar aqui, respirar até doer
as coisas possíveis nunca reais,
aprender, nó a nó, como te soltas;
vamos cair num poço, sem
bússola e pára-quedas, vamos ser o primeiro
amor a dois no mundo.

António Franco Alexandre

Monday, August 23, 2010

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, de oco;

ao ponto de ninguém e de nuvem.

sou mais a palavra com febre decaída, fodida, na

sarjeta.

Sou mais a palavra ao ponto de entulho.

Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las

pro chão corrompê-las,

até que padeçam de mim e me sujem de branco.

Sonho exercer com elas o ofício de criado:

usá-las como quem usa brincos.


Manoel de Barros

Sunday, August 15, 2010

meu querido mês de agosto

Sobre esta praia me inclino.
Praias sei;
Me deitei nelas, fitei nelas, amei nelas
com os olhos pelo menos os deitados corpos
nus côncavos da areia ou dentre as pedras
desnudos em mostrar-se ou consentir-se
ou em tombar-me intentos como o fogo
do sol em dardos que se chocam brilham
em lâminas faíscas de aço róseo e duro.
Do Atlântico ondas rebentavam plácidas
e o delas ruído às vezes tempestade
que em negras sombras recurvava as águas
me ouviram não dizer nem conversar
mais do que os gestos de tocar e ter
na tépida memória as flutuantes curvas
de ancas e torsos, negridão de pêlos,
olhos semicerrados, boca entreaberta,
pernas e braços se alongando em dedos.
Aqui é um outro oceano.
Um outro tempo.
Miro dois vultos na silente praia
pousada rente à escarpa recortada abrupta
que só trechos de areia lhes consente:
dois corpos lado a lado corno espadas frias.
Ainda que desça a perpassar recantos
onde se acolherão mais corpos nus,
é um outro oceano, um outro tempo em outro
diverso em gente organizado mundo.
Ambíguos corpos, sexos vacilantes,
um cheiro de cadáver, que ao amor não feito
concentra de tristeza e de um anseio
de matar ou ser morto sem prazer nem mágoa.
Aqui mesmo de olhar-se um qual pavor gelado
pinta de palidez o rosto que sorria,
o corpo que se adiante ao gesto desenhado.
E nem mesmo de outrora e de outros mares
se atrevem a deitar-se imagens soltas
que uma vez alegria acaso tenham sido.
Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado.

Jorge de Sena