Wednesday, July 21, 2010

dentro da fuga

Não foi outro o nosso amor
fugia tornava a voltar e trazia-nos
uma pálpebra descida muito longínqua
um sorriso marmóreo, perdido
dentro da erva matutina
uma concha bizarra explicá-la
procurava insistentemente nossa alma.

O nosso amor foi outro tenteava
quietamente entre coisas em redor de nós
para explicar porque não queremos morrer
com tanta paixão.

E se nos agarrámos a quadris e se abraçamos
outras nucas com toda a nossa força
e se unimos o nosso hálito com o hálito
dessa pessoa
e se fechámos os nossos olhos, não foi outro
apenas este anseio mais profundo de nos agarrarmos
dentro da fuga.

Yorgos Seferis
trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis

A Sort of a Song

Let the snake wait under
his weed
and the writing
be of words, slow and quick, sharp
to strike, quiet to wait,
sleepless.
- through metaphor to reconcile
the people and the stones.
Compose. (No ideas
but in things) Invent!
Saxifrage is my flower that splits
the rocks.

William Carlos Williams

Tuesday, July 6, 2010

o poema é inútil como uma criança

que as águas afagam

A. Franco Alexandre

Wednesday, June 16, 2010

contra a manhã burra

ÚLTIMO CIGARRO

o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência

é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos

mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras

gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras

escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite

a mão esquecida na vírgula acesa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na

nitidez esquecida da telefonia

Miguel-Manso
Contra a manhã burra

Sunday, June 13, 2010

The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes "Awww!"

Jack Kerouac
On the Road

On ne se réveille jamais: les désirs entretiennent les rêves. La mort est un rêve, entre autres rêves qui perpétuent la vie, celui de séjourner dans le mythique. C'est du côté du réveil que se situe la mort. La vie est quelque chose de tout à fait impossible qui peut rêver de réveil absolu.

Jacques Lacan

«Improvisation: désir de mort, rêve et réveil»

Friday, June 11, 2010

nuit et brouillard


Qui de nous veille de cet étrange observatoire, pour nous avertir de la venue des nouveaux bourreaux? Ont-ils vraiment un autre visage que le nôtre? Quelque part parmi nous il reste des kapos chanceux, des chefs récupérés, des dénonciateurs inconnus…
Il y a tous ceux qui n’y croyaient pas, ou seulement de temps en temps.
Il y a nous qui regardons sincèrement ces ruines comme si le vieux monstre concentrationnaire était mort sous les décombres, qui feignons de reprendre espoir devant cette image qui s'éloigne, comme si on guérissait de la peste concentrationnaire, nous qui feignons de croire que tout cela est d’un seul temps et d’un seul pays,
et qui ne pensons pas à regarder autour de nous,
et qui n’entendons pas qu’on crie sans fin.

c'est quand on rêve sans le savoir


... Ecoute-moi. Comme toi, je connais l’oubli.
Comme toi, je suis douée de mémoire. Je connais l’oubli.
Comme toi, moi aussi, j’ai essayé de lutter de toutes mes forces contre l’oubli.
Comme toi, j’ai oublié.
Comme toi, j’ai désiré avoir une inconsolable mémoire, une mémoire d’ombres et de pierre.
J'ai lutté pour mon compte, de toutes mes forces, chaque jour, contre l'horreur de ne plus comprendre du tout le pourquoi de ce souvenir.
Comme toi, j'ai oublié.
Pourquoi nier l'évidente nécessité de la mémoire?

...grande combate entre covers...

















Thursday, June 10, 2010

no dia dele

Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as matáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vosso netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos,porem flores no túmulo.

Jorge de Sena
Metamorfoses

Wednesday, June 9, 2010

Esercizio di Lingua

8 1/2 Festa do Cinema Italiano
Porto, Fundação de Serralves
18-20 de Junho



Sábado 19 de Junho | Fundação SERRALVES

18h00 ESERCIZIO DI LINGUA | DAVID BARROS | Portugal 2009 | 19' | Leg. PT

com a presença do realizador e da produtora Joana Rodrigues

Monday, June 7, 2010

...num dia de pólen e verão...

Fazer o quê de todo este mel,

Do crescendo das tardes em ouro, pólen e Verão,

Se a vida é, afinal, sempre e só

Dos outros, afinal, sempre e só

Transformada em vala comum,

Onde tentar o bem nosso

Pelo bem dos outros

Já não é sequer o mal menor,

Cansados de mais, brutos de mais,

Nós mesmos de mais,

Sempre morais numa impossível

E exaltada falta de paciência,

Numa pressurosa falta de ternura,

Nós sempre tão corredios,

Sardónicos até nos estertores,

Impérvios a essa música que nos tece

Perdidos em pleno espaço?

Há ainda um risco para nos salvar

De toda esta segurança,

Do geométrico, bancário, ergonómico

Acomodar-se da alma,

Do espírito flácido e famélico,

Algo que nos possa restituir

O gosto dos dias,

Esse que teremos na boca

Em hora extrema, ainda o gosto dos dias?


Nuno Morais

Últimos Poemas

Sunday, June 6, 2010

Sunday, May 23, 2010

e assim se faz o silêncio

(omarpareceazeite.blogspot.com)
PAULO EDUARDO CARVALHO (1965-2010)


A perda de Paulo Eduardo Carvalho para a cultura portuguesa e para a cultura do mundo é irreparável. E digo mundo, porque ele era conhecido além-fronteiras pelo saber que detinha sobre as artes do espectáculo, um saber que sempre partilhou com os outros. Alguns de vós hão-de ter visto peças traduzidas por ele, ou encenadas por ele, de Samuel Beckett, de Harold Pinter, de Brian Friel, de Caryl Churchill, de Frank McGuinness, de Martin Crimp… Paulo Eduardo era um professor imensamente dedicado, um tradutor originalíssimo, um investigador de mérito incomparável. Não chegam os adjectivos para descrever este homem do teatro que, tal como o teatro, era composto de mil valências e mil faces boas.

Como Goya, descrito por Jorge de Sena, o Paulo tinha “um coração cheio de fúria e de amor”. Por isso às suas qualidades científicas se somava todo um mundo de partilha de afectos. O seu desaparecimento é de uma violência inaudita. Era a pessoa mais extraordinária que eu conheci e eu tive o privilégio de o ter como o meu amigo mais querido. Preciso de o lembrar aqui.

Ana Luísa Amaral
_______________

PARA O PAULO

Era um dia de Verão, como o de hoje, e nós ali, sentados na minha varanda, falando de um dicionário que a Ana Gabriela e eu então preparávamos. Em cima da mesa, um cinzeiro muito raso. “Precisas de cinzeiros”, reparou o Paulo. E ia sugerindo entradas. Que tínhamos que incluir aquele termo, e que não nos devíamos esquecer daquele outro, ia dizendo. O calor desse dia era bom e, a certa altura, o Paulo acrescentou: “E ‘silêncio’, Ana? Num dicionário feminista, convinha que vocês tivessem uma entrada para ‘silêncio’”. “Tu achas?” – e fiquei a pensar. Depois, perguntei-lhe: “Olha, não queres fazer ‘o silêncio’ comigo?”. Olhámos um para o outro, e o Paulo, a rir, disse-me: “Ó Aninhas, isso dava poema”. Nunca houve no dicionário entrada para ‘silêncio’, mas houve, alguns dias depois, dois cinzeiros, um branco e outro castanho, grandes e protectores, que ele me deu e que nos serviram bem durante muito tempo. Houve ainda, como ele previu, poema, que eu lhe dediquei num livro, mas que, nas muitas leituras de poesia que fizemos juntos, nunca lemos em voz alta. A entrada para silêncio é esta nossa aqui, a da vida.


ALITERANDO SILÊNCIOS: COMPOSIÇÕES
Para o Paulo Eduardo

Não queres fazer o silêncio
comigo?
Sobressalta-se um pouco uma varanda
e acrescenta-se: vento

Por sobressalto: um vaso mal de frente
a estas flores,
ou um cinzeiro de pequeno porte,
ausente de cavalo,
e algum
desequilíbrio nessa mesa

Fazemos o silêncio,
se quiseres,
e assim mantemos tão aliteradas
as primeiras palavras

Está bem assim o vento,
não lhe mexas,
fica-lhe bem a asa sibilante
e ajuda à cinza que se alastra agora,
que transborda de lado na varanda
e desfaz a aridez dessa
roseira

Traz-me um pouco de paz
e ajuda-me a compor
esta paisagem

Vem fazer um silêncio,
porque o resto:
azul de som
– como em sereno
palco

Ana Luísa Amaral

A morte espreita-nos por detrás das evidências mais ou menos ideologizadas, desestabilizando as nossas verdades feitas, a nossa hierarquia de prazeres e abusos, a medíocre ilusão de fazermos história. O nosso combate trava-se no território difuso do efémero, o mais irredutível dos traços definidores da arte. A sua sobrevida estará na memória, qualificada e selectiva, que suscitem os nossos espectáculos.

Ricardo Pais
à entrada de Ricardo Pais: Actos e Variedades
de Paulo Eduardo Carvalho

Friday, May 21, 2010

Paulo Eduardo Carvalho


Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo verão

Ruy Belo

Hoje perdeu-se um grande homem do teatro, da literatura, da cultura.
Que nunca se perca a memória dele, porque grandes homens exigem enormes memórias.

como se morre?


Como se morre, Adolfo? Trinta e três
anos – uma idade perfeita – conheci-te,
soube de ti o dito e o não-dito, o que escreveste
e o que não escreveste. Por instantes,
os teus olhos cruzavam-se num viés de vesgo
que era um saber terrível de estar só no mundo
e não haver que valha a pena que se diga
sem destruir-se quanto em nossa vida é o pouco
indestrutível se guardado à força
num silêncio de exílio e de distância.
E todavia como estiveste no mundo, como
duramente bebeste toda a dor do mundo,
ou a fumaste em nuvens de cigarro que matavam
os teus pulmões possessos de asfixia.
Foste o estrangeiro e o exilado perfeito
e por todos nós que recusámos de um salto
por outras terras esta terra há séculos de outrem,
morreste em dignidade, sem queixas nem saudades
a queixa e a saudade mais pesadas
pesadas para o fundo, sem palavras
que as não há entendíveis aonde não se entende
a perfeição tranquila em desespero agudo
a que te deste num morrer sem voz

Jorge de Sena

Thursday, May 20, 2010


O valor das palavras na poesia é o de nos conduzirem ao ponto onde nos esquecemos delas.
O ponto onde nos esquecemos delas é onde nunca mais se pode ter repouso.
Natália Correia

Wednesday, May 19, 2010

o sangue para dentro das palavras

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

Daniel Faria
Explicação das Árvores e de outros Animais

sunny music for sunny days