Friday, April 29, 2011

Fábula de um arquiteto

As pessoas não morrem,
ficam encantadas.

J. Guimarães Rosa

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

2.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

João Cabral de Melo Neto



Wednesday, March 2, 2011

Monday, January 24, 2011

Sunday, January 9, 2011

Wednesday, December 22, 2010

Saudade, Murilo, Saudade

Maria da Saudade Cortesão Mendes, in memoriam

CARTA DE NATAL A MURILO MENDES

Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no Verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez deste postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal

Para ligar o eterno a este dia.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Lisboa, 22 de Dezembro de 1975

Wednesday, December 15, 2010

Degullar

A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro, da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão

Ferreira Gullar, Dentro da Noite Veloz

Monday, December 13, 2010

Friday, December 10, 2010

Mozart

Requiem de Mozart

Ouço-te, ó música, subir aguda
à convergente solidão gelada.
Ouço-te, ó música, chegar desnuda
ao vácuo centro, aonde, sustentada
e da esférica treva rodeada,
tu resplandeces e cintilas muda
como o silente gesto, a mão espalmada
por sobre a solidão que amante exsuda
e lacrimosa escorre pelo espaço
além de que só luz grita o pavor.
Ouço-te lá pousada, equidistante
desse clarão cuja doçura é de aço
como do frágil mas potente amor
que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

Ó música da morte, ó vozes tantas
e tão agudas, que o estertor se cala.
Ó música da carne amargurada
de tanto ter perdido que ora esquece.
Ó música da morte, ah quantas, quantas
mortes gritaram no que em ti não fala.
Ó música da mente espedaçada
de tanto ter sonhado o que entretece,
sem cor e sem sentido, no fervor
de sublimar-se nesse além que és tu.
Ó vida feita uma detida morte.
Ó morte feita um inocente amor.
Amor que as asas sobre o corpo nu
fecha tranquilas no possuir da sorte.

Jorge de Sena

Thursday, December 9, 2010

09.12.1977

Monday, November 22, 2010

POEMAS COM CINEMA


Ó Cinema, ó maravilha

em que eu me possuiria,

mas que apenas possuo

da sombra,

na minha solidão da multidão quieta,

entre as carícias do silêncio ao pensamento,

sem esforço levado

a sofrer, a sentir

o que de eterno há num momento!


Edmundo de Bettencourt

Sunday, October 24, 2010

Nova epístola para os poetas oitocentistas


Está ali, de costas para Caspar David, no alto
de um promontório negro, o que significa que ele
prolonga ainda mais além o olhar do pintor
e sobretudo a respiração, que inspira e expira o Mar.

Fiama, ainda

Lições de Anatomia Estética: Encore II

Estes pinheiros dialogam

com a boca do horizonte.
Riem como quem rasga
o abdómen dos ventos.

FHPB

Saturday, October 23, 2010

hedda, c'est moi


Teatro Nacional São João | Salão Nobre

[23 Outubro 2010]

sábado 17:00

“Estás a olhar para onde?”:

paisagens ibsenianas nos palcos contemporâneos

conversa com Jorge Silva Melo, Maria João Luís, Nuno Cardoso,

Patrick Sourd

moderação Alexandra Moreira da Silva

one of many good things

Friday, October 22, 2010

Lições de Anatomia Estética: Encore

PorNegrito olhos que mastigam. Pelos dedos

onde descansa a minha medula encostada.

Fiama

Depois, a Poesia tornou-se tão presente

que aceitei que me debicasse nas pálpebras.

Fiama, Fiama

Fiama em chamas

Serei eu a vítima

das chamas se as devorar
com os meus dentes presos às imagens
dos olhos que imaginam.

Fiama Hasse Pais Brandão
Área Branca