volume aos olhos, digo tudo
da voz que arremesso à boca, ventre
lá onde a pupila se parte
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Edvard Munch, A Cabeça de um Homem nos Cabelos de uma Mulher, 1896
Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse
Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor
Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados
Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava
O cabelo no seu sangue
Na água corrente
Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar
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E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.
E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguedelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.
Do patamar responde-lhe um criado:
«Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.» E muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.
Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!
Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.
E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.
As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum belo cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.
Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.
E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.
O sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
«Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!...»
Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantámos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.
«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dos excessos de virtude
Ou duma digestão desconhecida.
E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam as carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.
Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.
Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário - que infantil chilrada! -
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.
E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.
E, como grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.
Cesário Verde, «Num Bairro Moderno», 1877
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Martine Franck
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HAPPY DAY SOUNDTRACK
Em dia de festa,
MONTAGEM PARA MANU ELE
Laisse que je plie un genou devant ta brune erreur
Deixa que eu dobre um joelho na tua boca morena
En hospitales donde los huesos salen por la ventana,
Em hospitais onde os ossos saem pelo vento dentro
Neste país onde os homens são só até ao joelho
do poema
E o joelho que bom está tão barato
Volto então ao teu
joelho entreabrindo-te
os olhos
pela mão no joelho que se abre
ponho um beijo
demorado
no topo da tua mão.
O mistério começa do joelho para dentro.
O que faremos quando os cães vierem?
Eles gostam de ossos:
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
E ai, na areia anónima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos choram.
Agora jantaremos a medula
das estrelas com seus ossos
depois da chuva de prata.
Com um punho cravado na medula,
uma lua no sangue, um girassol nos rins.
Os meus ossos estão espetados no deserto
dessas gargantas. Deixo a boca
seguir o desejo nelas.
Un jour d’épaule nue Um dia de ombros nus
Um dia de sombras
Cravadas como ossos
Na areia do deserto.
Seria absurdo falar-se de esqueleto.
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se agora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Finges dormir para que a dor não deixe rastro no sangue.
The blood of light on thy lips.
Espero contra essas veias, no meio
dos ossos quentes.
Chama-se
com ossos de cinza e cabelos em chama.
No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Com os ossos imensos incendeio as casas
rente à claridade da pele:
rente aos ossos com toda a exactidão
das palavras nuas e deslumbradas.
A chuva mansa lavará tudo:
levará tudo, até chegar
aos duros ossos desnudados
e os ossos, os ossos esquecem.
Não somos os olhos de ninguém:
um resto de sítios atados nos ossos é um coração?
Vou entrando no teu tempo com esta cor de sangue,
acendo as falangetas,
cerco-te com as duas mãos
e as mãos enterram-se na parte mais viva do mundo.
Fica sobre a terra o espaço das mãos.
Mas entre o seguinte: entre ossos e chão.
Terra adentro a boca a encher-se-me de olhos
até que irrompa a manhã.
Gosto de ti como se gosta do sol, e era bom
ficar ao sol todo o dia, mas queima.
Podes ter mãos. Podias até, alguma vez, ter lábios,
dizer alguma coisa em língua, numa língua qualquer.
Abraço-te
devagarinho, com as costas dos ossos,
com pedacinhos de ossos, huesitos,
e o abraço tem a mesma
violência constante dos ossos calcinados.
Ergo nos dedos olhos esmagados
e fica o pó das folhas nas retinas.
Mistura
no sangue e na saliva o azul, a carne.
Sentado como se estivesses
sentado sobre o mar,
escuta o lento bater das ondas nos confins dos ossos.
Je voyais je voyais l’avenir à genoux
Eu vejo eu vejo os joelhos que vêem
e o joelho que bom é só até à ilharga
uso dos meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite
no país onde os homens são só até ao joelho.
Comeremos a medula do almoço,
a acompanhar o vento
que arrasta consigo esta chuva de fósforo e
estes presságios de tranquilos ossos.
Entalaremos na garganta
a árvore que cresce nos pulmões.
Quero é esse esqueleto mais de dentro:
o aço do osso, que resiste
quando o osso perde seu cimento.
E é outra ossatura mais forte
que a armação comum, de todos;
debaixo da própria carne,
no fundo centro de seus ossos.
São-me necessárias imagens radiografias de olhos
Rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser estes dentes rasgados no lugar dos ossos
Toca-me o rasto com o teu nome, ou pousa-me sobre as mãos
e espalha os dedos em volta, no colo aquecido
do vento que instala a dobra azul dos cotovelos.
Minhas pequenas dívidas multiplicam os dentes,
furam pelos dedos as vísceras
intensas do vento, estremecem
nos cotovelos completos.
Este mar
não vai parar na minha pele, este vento
começa a negar-me os olhos.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.
Dobro os cotovelos na gaveta,
onde se guarda o tempo ocupado
das palavras, em seu osso.
Mas os olhos: nossos um bicho guarda,
intactos em seu tempo, intermináveis.
Olhas-te no espelho vês-te
um nome um corpo um gesto
comes
a árvore com a saliva das unhas.
Debruça-te para dentro de mim e deixa que o segredo do tempo fulmine os ossos.
Eis como
um osso curva
o teu riso no meio das ruas:
como se tivesse olhos na nuca.
Vejo a toda a volta o teu silêncio.
E fecho os ossos para não te ver.
Se o meu corpo deslizasse em olhos de sangue
saberia estalar os ossos das tuas mãos
mudas, onde os dedos despontam
como a rótula no cruzar das pernas.
Porém bastante sangue nunca existe guardado em veias
- ou em olhos -
e por isso o dia esvai-se quando, nos céus, se enchem de fogo os olhos vazios da noite.
A luz da tarde mostra-me os destrossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Para o homem capaz de roer
os ossos do ofício
o tempo de sedução terminou:
terá de trocar o tacto dos olhos pelo tacto das velas.
O mar é este azul-sangue
Dos olhos dilatados, olhos de navio
atentos à coagulação das imagens.
No silêncio das marés
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as perdas)
ouço a água nos teus olhos.
A maré sobe
a boca do mar
sobre os pulsos
já a sinto. É a noite
toda nos meus passos,
peixes que se miram no vidro da retina
fundamentais que nem olhos.
E mesmo sob a pálpebra da treva
Talvez ouças como os meus olhos nos teus
se deitam.
Todas estas noites com o carvão em redor dos olhos,
o gesso do sangue nas pálpebras dos dentes
nada se move dentro ou fora de mim,
excepto o vento no interior dos ossos.
Não abras
os teus olhos contra os ossos da minha cara.
Seria íntimo como um joelho sem pálpebra aberto na nossa mão.
Montagem feita com versos roubados a: Abelardo Linares, Affonso Romano de Sant’Anna, Al Berto, Albano Martins, Ana Marques Gastão, António Franco Alexandre, Archibald Macleish, Camilo Pessanha, Carlos Drummond de Andrade, Casimiro de Brito, Constantine Cavafy, Fernando Assis Pacheco, Ferreira Gullar, Gastão Cruz, Helder Noura Pereira, Herberto Helder, Ivan Junqueira, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Manuel Magalhães, José Gomes Ferreira, Louis Aragon, Luís Miguel Nava, Maria Teresa Horta, Mário Cesariny de Vasconcelos, Murilo Mendes, Pablo Neruda, Pierre Jean Jouve, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vasko Popa e Vinicius de Moraes.
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À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça.
Parece uma constipação na alma.
Senti a vida no estômago, e o olfacto tornou-se-me uma coisa por detrás dos olhos.
As vozes saem do ar, e não de gargantas.
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Lars Ekborg e Harriet Andersson
Mónica e o Desejo (Sommaren med Monika)
Dir. Ingmar Bergman, 1953
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Vladimir Nabokov by Halsman
If my first glance of the morning was for the sun, my first thought was for the butterflies it would engender.
Literature and butterflies are the two sweetest passions known to man.
Vladimir Nabokov by himself
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